Archive for September, 2010

Um tempo todo seu


Um tempo todo seu: o direito ao lazer das mulheres, na perspectiva do Direito do Trabalho e dos Direitos Humanos, e à luz de Um teto todo seu, de Virginia Woolf.

Antônio Cavalcante da Costa Neto

(Artigo publicado na Revista da ESMAT 13 – Escola Superior da Magistratura Trabalhista da Paraíba – Ano 3, número 3, setembro/2010).

RESUMO. Este trabalho tem como objetivo trazer à reflexão o tema do direito ao lazer das mulheres, na perspectiva do Direito do Trabalho e dos Direitos Humanos, a partir de ideias básicas expostas no livro Um teto todo seu, de Virginia Woolf.

Palavras-chave: tempo, mulheres, lazer, trabalho, Um teto todo seu, Virginia Woolf.

ABSTRACT. This work has as objective to bring to the reflection the theme of the right to the women’s leisure, in the perspective of the Labor Law and of the Human Rights, starting from basic ideas exposed in the book A room of one’s own, by Virginia Woolf.

Keywords: time, work, women, leisure, work, A room of one’s own, Virginia Woolf.

Introdução

“Mas, dirão vocês, nós lhe pedimos que falasse sobre as mulheres e a ficção ─ o que tem isso a ver com um teto todo seu?” Assim começa o livro Um teto todo seu, de Virginia Woolf. Num tom reflexivo e questionador, a autora cogita sobre as várias possibilidades de se falar sobre mulheres e a ficção. Fazer comentários sobre escritoras conhecidas ou referências sobre obras escritas por elas? Talvez essa não fosse a melhor saída. O tema poderia significar um mundo de coisas sobre a própria “natureza” da mulher e do universo feminino; a literatura escrita por elas e sobre elas seria apenas uma parte desse universo. Por isso, depois de sentar-se à margem de um rio e começar a pensar sobre o sentido das palavras do tema que lhe foi proposto, a autora-personagem intuiu um jeito diferente de tratar a questão. Desnudaria, diante de todos, sua opinião sobre algo aparentemente insignificante, mas que, pensando bem, é fundamental: “a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se pretende mesmo escrever ficção.” (WOOLF, 1997, p. 8).

Este trabalho tem como referencial básico o livro Um teto todo seu, de Virginia Woolf. Não se trata de uma resenha sobre a obra, mas de uma reflexão sobre os problemas relacionados ao direito ao lazer das mulheres, examinados na perspectiva do Direito do Trabalho e dos Direitos Humanos, e iluminados por ideias colhidas naquele livro.

Para ler o texto integral clique aqui.

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September 24, 2010 at 9:47 pm Leave a comment

Ruim de urna


Estávamos em 1988, ano em que o povo brasileiro deu à luz a Constituição que ainda hoje nos rege. Sopravam os bons ventos do retorno à democracia, do desejo de restaurar liberdades e construir uma sociedade menos desigual. Eu, com meus vinte e poucos anos e prestes a terminar o curso de Direito, sonhava com um país de cidadania mais larga, condizente com o novo tecido constitucional.

Morávamos numa cidadezinha ─ e não tenham o diminutivo, aqui, na conta de termo depreciativo, mas denotativo e, ao mesmo tempo, carregado de sincero carinho ─ na qual, como sói acontecer em muitas outras cidades, a política partidária, tal qual uma lapinha, era uma disputa entre dois cordões, não necessariamente o azul e o encarnado. Resolvemos, então, fundar um terceiro cordão, que se auto-enxergava mais ético e de esquerda. Nada de aliança com os detentores do poder. Influenciados pela Teologia da Libertação, imaginávamos que o mundo seria melhor quando o menor que padece acreditasse no menor. Daí, para nós era absurdo, por exemplo, um pobre votar num L-A-T-I-F-U-N-D-I-Á-R-I-O (pureza ideológica ou ingenuidade política?).

Com a cabeça povoada de sonhos, acabei sendo candidato a prefeito, não dando ouvidos ao que cantava Raul Seixas, em cowboy fora da lei. Todavia, minha estreia nas urnas não foi muito animadora: menos de cinco por cento dos votos válidos, numa disputa acirrada e polarizada entre os dois cordões que o eleitorado efetivamente levava em conta (quem quiser conferir, basta acessar o site do TRE).

Quatro anos mais tarde, ainda escaldado pelo insucesso eleitoral, lá estava eu, novamente candidato. Não mais a prefeito, e sim a vereador, e por outro cordão, de coloração diferente. Volúvel! Sei que alguns assim me julgaram na época. Mas o fato é que continuávamos na oposição ao grande líder político local (sempre fui do contra, em minha curta carreira de aprendiz de candidato), e, no meu caso, as razões da mudança, mais do que ideológicas, eram afetivas.

Meu pai era candidato a vice-prefeito do bloco dos contra, e o afastamento do meu trabalho em razão da candidatura acabou permitindo ─ sem que eu jamais pudesse imaginar que tudo fosse acontecer como aconteceu ─ que eu ficasse mais perto dele, nos últimos meses de sua vida. Pude, assim, acompanhar seus passos na campanha eleitoral, durante a qual ele veio a falecer, no sete de setembro mais sofrido de nossas vidas, dia em que até os clarins das bandas da cidadezinha emudeceram, em homenagem ao professor e maestro.

Só Deus sabe como arranjamos força para continuar a campanha daí em diante. Mas fomos até o fim. E jamais esquecerei o dia da eleição, em que mais uma vez pude, na intimidade inviolável da cabine eleitoral, depositar na urna o voto pelo projeto de mudanças da pequena urbe (que não deixava de ser o nosso orbe), com os olhos cheios de lágrimas e o coração sangrando de saudade de meu pai. Assim, a perda menor foi a das urnas, que me concedeu mais uma fragorosa derrota eleitoral.

Passados vinte e poucos anos de minha primeira experiência como candidato, tenho de admitir: não sou mesmo bom de urna. Eu quis a política partidária; ela é que não me quis. Contudo, não me arrependo de um dia ter por ela me enamorado, com todos os erros e acertos que fizeram parte desse affaire, nem de continuar tendo por ela certo fascínio, mesmo que este fique guardado no silêncio do coração, devido à natureza do ofício que me cabe exercer.

Se o ser humano é destinado a coexistir politicamente, a política partidária, entre tantas formas de se viver a política, dentro da qual todos nos movemos socialmente, continua sendo um dos instrumentos importantes para a construção da cidadania. É claro que algumas coisas na política partidária podem nos causar estranheza e indignação. Hoje em dia, os cordões azul e encarnado não são mais tão azul e encarnado como antes. Muita gente que cantava quem morre calado é sapo debaixo do pé do boi hoje entoa jingles de candidatos que antes eram esconjurados como latifundiários opressores.

Sei que os tempos são outros. Teologia da Libertação (que pena!) parece fora de moda, e frouxidão ética é confundida com amadurecimento político. Mas sei também que, apesar de tudo, nestes vinte e poucos anos, houve avanços no processo de inclusão de mais e mais pessoas no exercício dos direitos de cidadania, e parte desse avanço se deve à ação de idealistas enamorados da política. Esta constatação me ajuda a crer que o sacrifício de meu pai não foi em vão, mesmo que isso possa ser apenas um consolo para quem se reconhece ruim de urna, mas que nem por isso viu morrer dentro de si o sonho de construção de uma sociedade de cidadania alargada.

September 24, 2010 at 9:42 pm Leave a comment

A sabedoria de Agur


Ó Deus, eu Te peço apenas duas coisas para a minha vida nesta Terra: não me deixes ser um mentiroso! Este é o primeiro pedido. Além disso, não me deixes ficar nem muito rico nem muito pobre! Dá-me somente aquilo de que realmente preciso. Eu não quero ser ingrato, confiando somente nas riquezas e Te deixando de lado; também não quero ficar tão desesperado por causa da pobreza a ponto de me tornar um ladrão e manchar o Teu santo nome.

Como parece atual a oração de Agur! De forma simples e sábia, característica do livro dos Provérbios, no qual está contida (Pr 30, 7-9), ela toca em questões fundamentais nos dias de hoje: a tentação da mentira e os perigos da riqueza supérflua e da pobreza aviltante.

Mentir, segundo Santo Agostinho, é dizer o que é falso com a intenção de enganar. A mentira ─ ensina o Catecismo da Igreja Católica ─ é profanação da palavra, cuja finalidade é comunicar às pessoas a verdade conhecida. Quando alguém ludibria o outro, comete contra este uma violência, pois “o fere em sua capacidade de conhecer, que é a condição de todo juízo e de toda decisão.” Com isso, atenta contra a liberdade e a dignidade da pessoa, vez que retira dela o direito de formar retamente o convencimento e agir com base em informações verdadeiras. Além disso, a mentira abala a confiança, destruindo a teia das relações entre as pessoas e a união destas com o próprio Deus.

No mundo em que vivemos, a mentira toma formas sofisticadas e, para muitos, torna-se banal, principalmente quando dela se pode tirar alguma vantagem. Ela se faz presente na venda efetuada com base em propaganda enganosa; na prestação de contas de maus gestores públicos e seus cúmplices, feitas como álibis contábeis da corrupção; nos discursos eleitoreiros de quem promete sem estar disposto a cumprir o prometido; na hipocrisia do pregador que ao dar seu testemunho descamba para o exibicionismo. Sendo assim, faz sentido ainda hoje pedirmos a Deus que não nos deixe dominar pela tentação da mentira, e que nos dê força para testemunhar a verdade. Obviamente, falar a verdade não significa sair por aí provocando escândalo, ferindo a discrição ou revelando segredos dos outros, haja vista que, como lembra o Catecismo, “ninguém é obrigado a revelar a verdade a quem não tem o direito de conhecê-la.”

Se o primeiro pedido de Agur é importante, o segundo se reveste de sabedoria ainda mais profunda, constituindo-se na essência de toda boa oração: pedir que Deus nos dê aquilo de que precisamos; nem mais, nem menos. Conta-se que Platão teria se referido à seguinte prece de um antigo poeta, como a melhor maneira de nós mortais, que não temos a plena visão das coisas, rogarmos à divindade: “dá-nos aquilo que é melhor para nós, quer estejamos pedindo ou não; mas afasta de nós o que for mal, mesmo que seja algo pelo qual estejamos implorando.” Quanto a riqueza e a pobreza extremas, que podem ou nos tornar ingratos e confiantes apenas no dinheiro, ou nos fazer manchar o santo nome de Deus, essa questão tem a ver com o que nos propõe a Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano.

Economia e vida: vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24). Nesta Campanha, somos chamados a colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, para que todos contribuam na construção do bem comum em vista de uma sociedade sem exclusão. Somos alertados ainda quanto ao perigo da ganância, pois “não é pelo fato de um homem ser rico que ele tem a vida garantida pelos seus bens” (Lc 12,15). A pobreza, por outro lado, seja material, intelectual, afetiva ou espiritual, não pode ser vista como fatalidade. É preciso organização e solidariedade para superá-la, para que todos possam desfrutar dos bens produzidos socialmente. Também é preciso combater a cultura do consumismo, em que tudo se torna mercadoria, até a religião – que o digam os abusos cometidos em nome da teologia da prosperidade! Afinal de contas, se tudo o que temos é dádiva, esta jamais pode ser comprada ou paga com dinheiro, mas simplesmente acolhida com gratidão, e agradecer é diferente de pagar.

Assim sendo, como diz a oração da Campanha, devemos reconhecer Deus como criador, do qual tudo nos vem, e O louvarmos pela beleza e perfeição de tudo que existe como dádiva gratuita para a vida. Devemos ainda compreender que a Boa Nova que vem de Deus é amor, compromisso e partilha entre todos; reconhecer nossos pecados de omissão diante das injustiças que causam exclusão social e miséria, além de pedir as bênçãos divinas para os que trabalham na promoção do bem comum e na condução de uma economia a serviço da vida. E que Deus nos dê um pouco da sabedoria de Agur.

September 24, 2010 at 9:40 pm Leave a comment

A jumenta de Balaão



Aprendi com um professor do curso de Teologia, que não devemos estudar a Bíblia como quem olha uma fotografia, mas radiografá-la, como se faz com os raios X. Isso porque a Verdade Revelada é mais profunda do que aquilo que se pode ver na superfície das palavras. Dizer, por exemplo, que o homem foi modelado com argila, pode ser uma forma imorredoura de se falar que ele foi formado a partir dos mesmos elementos que compõem a terra, tanto que o nome Adão significa “o que vem do solo”. Além disso, não se deve perder de vista que a linguagem bíblica não é estritamente histórica, o que a tornaria refém do tempo; e que os textos sagrados, em sua exuberância inesgotável, compreendem diversos gêneros literários, incluindo narrações históricas, relatos didáticos, hinos, poemas, cartas e até mesmo fábulas, como a da jumenta de Balaão, contada no capítulo 22 do livro dos Números.

Balaão, adivinho das bandas do rio Eufrates, é chamado por Balac, rei de Moab, para amaldiçoar o povo judeu, considerado uma ameaça pelo rei. Todavia, Balaão havia reconhecido Iahweh como seu Deus, e em vez de lançar a maldição encomendada, pronuncia um poema de bênçãos sobre os filhos de Israel. Antes, porém, acontece um caso fabuloso. Na viagem de Balaão rumo aos domínios do rei Balac, a jumenta do profeta vê o Anjo do Senhor na estrada, com a espada desembainhada, e se desvia da rota para salvar o seu dono. Este, com raiva, espanca a coitada da mula. Iahweh, então, abre a boca da burrinha, que se põe a falar: “Que te fiz eu, para me teres espancado já por três vezes?”, pergunta o animal. “É porque zombaste de mim! Se eu tivesse uma espada na mão já te haveria matado”, responde Balaão enfurecido. O animal, entretanto, não se faz de rogado e retruca: “Não sou eu a tua jumenta, que te serve de montaria toda a vida e até o dia de hoje? Tenho o costume de agir assim contigo?” Nisso, Iahweh abre os olhos de Balaão. Este agora vê o que antes só o animal vira, e, caindo em si, prostra-se diante do Anjo do Senhor. Moral da história: quem, naquele caso, é mais clarividente, a jumenta ou o profeta?

Há quem diga que o caso da jumenta falante é uma fábula independente, enxertada na narrativa sobre o mago Balaão, de forma um tanto desconjuntada. Mas isso não quer dizer que da fábula não se possam retirar mensagens edificantes. Eu sempre fui fascinado por fábulas, histórias vivas e imaginativas que, como toda narrativa de significação simbólica, permitem falar verdades sem os limites da racionalidade estrita. Nelas, animais falam e nos dão lições de vida. Mas será que eles fazem isso somente nas fábulas? Não existem cães e gatos, por exemplo, que compreendem melhor seus donos, e são compreendidos por estes, mais do que muita gente que não late nem mia? E a marcha dos pinguins, “a mais bela das histórias que a natureza inventou” e virou documentário vencedor de Oscar, não é uma aula magistral da sabedoria do instinto? E qual o sentido de um místico como São Francisco conversar com os animais, ou Santo Antonio pregar seu sermão aos peixes?

Eu, de minha parte, penso que animais podem conversar e nos ensinar não só nas fábulas, mas fora delas. Nós é que muitas vezes nos comportamos como Balaão, enxergando menos que a jumenta. Talvez por insistirmos em procurar as verdades reveladas na palavra e na vida como quem olha uma fotografia, e não com o olhar penetrante dos raios X, como nos ensinou nosso professor de Teologia.*

* Refiro-me ao professor Paulo Afonso Dornelas Borges, que em 14/01/2009, faleceu, vítima de acidente automobilístico, a quem presto homenagem por tudo de bom que nos ensinou com suas aulas e, principalmente, com seu exemplo de vida.

September 17, 2010 at 10:41 pm 2 comments

Gilgamesh



“Reinar é o teu destino; a vida eterna não é o teu destino.” Esta foi a sina decretada por Enlil da montanha, o pai dos deuses, a Gilgamesh, rei de Uruk. Mas quem é Gilgamesh, e que destino é esse decretado por Enlil da montanha?

O poema de Gilgamesh advém de tempos imemoriais. Quase perdido no esquecimento, veio à luz nas primeiras décadas do século XIX, quando exploradores ingleses, ao fazerem escavações em Nínive, descobriram mais de vinte mil textos escritos em tabuinhas de barro, nas ruínas da biblioteca de Assurbanipal. A partir de então, iniciou-se uma série de estudos sobre essa literatura até então perdida, da qual faz parte a epopéia de Gilgamesh, seguramente a mais antiga de que se tem conhecimento. Somente para se ter uma idéia, esse poema data de pelo menos mil e quinhentos anos antes da Ilíada e da Odisséia. Logo no prólogo, o narrador anuncia:

Proclamarei ao mundo os feitos de Gilgamesh. Eis o homem para quem todas as coisas eram conhecidas; eis o rei que percorreu as nações do mundo. Ele era sábio, ele viu coisas misteriosas e conheceu segredos. Ele nos trouxe uma história dos dias que antecederam o dilúvio. Partiu numa longa jornada, cansou-se, exauriu-se em trabalhos e, ao retornar, descansou e gravou na pedra toda a sua história.”

Depois desse anúncio, segue o relato da luta do rei contra os poderes do mal, numa narrativa dinâmica e colorida, tão eletrizante que parece filme de Hollywood. Na angústia de saber que todo homem tem seus dias contados, Gilgamesh saiu em busca do segredo da imortalidade. Nessa aventura, “correu o mundo selvagem; vagou pelos campos e pastos numa longa jornada em busca de Utnapishtim, a quem os deuses acolheram após o dilúvio e instalaram na terra de Dilmum, no jardim do sol; e somente a ele, entre todos os homens, os deuses concederam a vida eterna.”

E quando finalmente encontrou o sobrevivente do dilúvio, não ouviu deste palavras de consolo, mas a lição de que no mundo dos homens não existe permanência: “Acaso construímos uma casa para que fique de pé para sempre, ou selamos um contrato para que valha por toda a eternidade?” (…) O que existe entre o servo e o senhor depois de ambos terem cumprido seus destinos?”

Ouviu também a fantástica narrativa do dilúvio provocado pelos deuses, que resolveram exterminar a raça humana, mas mandaram Utnapishtim construir um barco em que pusesse preservar a semente de todas as criaturas vivas. Soube ainda da existência de uma planta que cresce sob as águas, capaz de restaurar ao homem a juventude perdida. E Gilgamesh, na volta de sua jornada, conseguiu pegar em suas mãos essa planta. Esta, porém, foi roubada por uma serpente saída do fundo de um poço, no qual o rei tinha entrado para se banhar.

Pois bem. O poema de Gilgamesh é a história de cada um de nós; de quem tenta desvendar os mistérios e histórias do passado distante, até mesmo de dias anteriores ao dilúvio; do ser humano que apesar de, algumas vezes, definir-se como um ser para a morte e abandonado ao próprio destino, revela, na epopeia do dia-a-dia, uma profunda vocação para a transcendência.

September 17, 2010 at 10:39 pm Leave a comment

Rosa de Saron



Não é de hoje que Marx nos manda abrir o olho para o fetichismo da mercadoria. No reinado do capital, tudo é objeto de comércio. Comercializa-se a natureza, o ser humano (corpo e alma) e até o próprio Deus. Mas não é só. Nesse reino, a mercadoria é a grande feiticeira. Imagine só se o velho profeta materialista tivesse vivido para ver essa feitiçaria no mercado da televisão. Canal sim, e outro também, tudo o que veria era anúncio de mercadoria para seduzir o potencial consumidor: do automóvel que enche os olhos ao aparelho de ginástica que promete o milagre de esculpir o corpo ideal. O fetichismo na telinha é tão avassalador, que não admira a presença do atleta no comercial de cerveja, nem do sacerdote no besteirol dominical vespertino. Tudo para seduzir o telespectador a comprar produtos transformados em desejos de consumo. Pois nesse caso, como li num texto sobre fetichismo da mercadoria, “necessidade é água, desejo é coca-cola.”

Para o bom funcionamento dessa feitiçaria, a propaganda é ingrediente indispensável. Aí entra em cena o marketing. Hoje em dia há marketing para quase tudo, fazendo surgir, entre outras, as figuras do marqueteiro político e do marketing religioso. Neste último, por mais cuidado que se tenha, há sempre o risco de transformar o anunciador do Evangelho em camelô da prosperidade, misturando-se valores religiosos com econômicos, o que pode ser visto não apenas na televisão, mas em outros meios de propaganda. Um adesivo num automóvel, com o slogan “propriedade de Jesus”, tanto pode ser visto como expressão genuína de fé, como pode gerar um mal-entendido. Afinal, sobre sua declaração de bens, o próprio Jesus disse que as raposas tem tocas e as aves do céu, ninhos; mas o filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. Se é assim, faz sentido Ele ser proprietário de uma hilux, por exemplo? Do mesmo jeito é o “foi Deus que me deu”. Claro que tudo é dom de Deus, mas vincular essa realidade a uma propriedade privada suntuosa não deixa de representar uma subversão ao Magnificat, dando a entender que Deus só cumula de bens a quem é rico, e despede os famintos de mãos vazias.

Nutridas à base de propaganda e marketing, nascem e crescem muitas marcas. Rosa de Saron é uma delas. Além de ser nome de uma famosa banda gospel, que comercializa vários produtos com sua marca, Rosa de Saron também dá nome a outros empreendimentos e produtos, inclusive a uma grife de moda íntima.

Há quem remeta essa marca a um título supostamente atribuído a Jesus. Invoca-se, para tanto, um versículo do Cântico dos Cânticos (2,1): “Eu sou o narciso (ou a rosa) de Saron, uma açucena dos vales.” Essa frase faz parte de um dueto, cheio de galanteios, entre o Amado e a Amada, esta também chamada a Sulamita. A frase é dita por ela e não por ele. A jovem se apresenta como uma flor do vale de Saron, que dizem ter sido uma região árida da Palestina, depois transformada por Deus em terra de abundância, onde se cultivavam as mais belas rosas jamais vistas.

Rosa de Saron, portanto, simboliza a beleza. O jovem, por sua vez, é comparado à macieira entre as árvores do bosque, o que é visto por alguns estudiosos como símbolo do desejo sexual. Nesse caso, Rosa de Saron cai bem como marca de lingerie, o que não deve causar espanto, pois uma das interpretações do Cântico dos Cânticos é a de que o livro é uma composição de cantos populares do amor humano, erótico e sensual, que não precisaria ser sublimado num pudor espiritualizante para poder constar na Bíblia, já que o amor entre homem e mulher também é dom de Deus. Mas se optarmos pela leitura alegórica, que vê no amor dos Amantes o casamento de Deus com Israel, ou de Jesus Cristo com a Igreja, ainda assim o título Rosa de Saron não seria atribuído adequadamente a Jesus Cristo, pois Este seria o Amado e não a Sulamita.

Na Escritura, quando se fala nas núpcias do cordeiro, o Noivo é Jesus Cristo; a noiva, a Igreja. Nesse caso, forçar a barra e dizer que a Rosa de Saron é Jesus Cristo implica confundi-lo com a Igreja. Pode-se até ponderar, como fazem alguns, que Jesus é a Rosa de Saron por ser único, como as flores daquele deserto, que não existem mais. Entretanto, aí já teremos outra analogia, que não tem fundamento no versículo do Cantares. Portanto, quem consome a marca Rosa de Saron, crente que está adquirindo um produto com nome de título bíblico de Jesus, pode estar comprando gato por lebre, o que certamente não é bom negócio. Pois mesmo no reino do fetichismo da mercadoria, não fica bem a prática de propaganda enganosa.

September 17, 2010 at 10:38 pm Leave a comment

ENTREVISTA EXCLUSIVA:Juiz Antonio Cavalcante fala sobre o livro O Sentido da Vida

Será hoje à noite, no Colégio da Luz (Guarabira) o lançamento do livro o sentido da vida.
O blog fato a fato, do jornalista Antonio Santos, publicou entrevista com o autor do livro,
abaixo transcrita:


O Sentido da Vida

Guarabira-PB (Fato a Fato) – O blog publica, com exclusividade, entrevista com o juiz da Vara do Trabalho de Guarabira, Antonio Cavalcante da Costa Neto. Ele é autor do livro O Sentido da Vida, que será lançado hoje (16), a partir das 19h, no auditório do Colégio da Luz.
Na entrevista, o autor diz qual o sentido de sua obra, a contribuição que ela pode levar a existência humana, bem como o valor que o livro tem em termos reflexivos. Qual o sentido da vida? Essa resposta o leitor deve encontrar no compêndio de Antonio Cavalcante. Confira a entrevista na íntegra.
1 – De que trata o livro O Sentido da Vida. Em que se baseia o autor para pavimentar um tema tão complexo, visto que muitas e muitas vidas não têm sentido, principalmente do ângulo existencial?
Antonio Cavalcante
O livro é uma coletânea de textos publicados no jornal Nosso Tempo e no da Associação dos Magistrados do Trabalho (AMATRA 13). Um desses artigos intitula-se “o sentido da vida”, e fala da logoterapia, desenvolvida por Viktor Frankl, sendo o título que escolhi para dar nome ao livro. Mesmo os textos tratando de temas variados, é possível vislumbrar, no painel que deles resulta, um fio condutor, que é a busca de sentido para a vida. Pessoalmente, (e certamente isso se deve à formação cristã que me foi dada), acredito que não há vida sem sentido, por mais que sob o ângulo existencial algumas aparentem ser. Mas o livro não pretende fazer doutrinação ou proselitismo, e sim ajudar a refletir sobre a busca de sentido para a vida.
2 – No seu blog tem um artigo de sua autoria (Um Galo Para Asclépio). Refere-se aos últimos lampejos de vida de Sócrates. O que significa a oferenda do filósofo, já que a narrativa faz parte do livro O Sentido da Vida?
Antonio Cavalcante
Saber morrer também faz parte da busca pelo sentido da vida. Dizem até que filosofar é aprender a morrer. E a morte de Sócrates tornou-se não apenas um ícone da pintura neoclássica, mas símbolo da sabedoria do ser humano consciente de sua finitude e ao mesmo tempo de sua transcendência. Sócrates, mesmo julgando injusta sua condenação, e tendo oportunidade para escapar da pena que lhe foi infligida, preferiu ser coerente até o fim, e mesmo no momento extremo, não esqueceu a promessa que havia feito (a oferenda à divindade), cujo cumprimento lhe deixaria livre e sereno para fazer a travessia reservada a todos nós, viajantes do tempo.
3 – Em que ponto a vida tem sentido para um juiz, já que é determinado a decidir sobre o direito do ser humano. No seu livro há alguma relação ao que ora perguntamos?
Antonio Cavalcante
A grande missão de um juiz é tentar fazer justiça. Esta, como diz um dos capítulos do livro (fome e sede de justiça), não deve ser artigo de luxo, nem miragem distante da vida. Longe disso, como lembra José Saramago, deve ser a justiça companheira dos seres humanos, justiça que é condição de felicidade do espírito e condição do próprio alimento do corpo, pois se houvesse verdadeiramente tal justiça, ninguém morreria de fome, nem a existência no mundo seria um vale de lágrimas. Daí que o sentido da missão do juiz deve se inserir nessa luta constante de todos os seres humanos para a construção de um mundo mais justo.
4 – Para quem serve o conteúdo de O Sentido da Vida. Há um ‘norte” no compêndio onde possamos nos basilar. Qual seria esse farol?
Antonio Cavalcante
O conteúdo do livro pode servir a todas as pessoas que se disponham a refletir sobre o tempo e o passar do tempo, sobre a morte e a transcendência, sobre a busca do prazer nas drogas para encher o vazio existencial, sobre a liberdade, a fé, a alegria e o sofrimento, enfim, sobre várias questões que nunca deixaram nem deixarão de ocupar a mente do ser humano. Quanto ao “norte” do livro, se é que se pode apontar um, ele poderia ser identificado, como observo na introdução da obra, fazendo referência a Celso Lafer e Octavio Paz, na tentativa de redescoberta da figura do mundo na dispersão de seus fragmentos, haja vista que na chamada pós-modernidade, as coisas parecem ter perdido o seu centro.
5 – Quando, por que e como veio a veia de escritor e articulista em Antonio Cavalcante Neto. Não no juiz, mas no homem?
Antonio Cavalcante
Serei eu um escritor? Penso que sou mais um fascinado pela palavra. Esta, no dizer de Octavio Paz, é o próprio ser humano. Não somos apenas carne e osso, mas formados por palavras, que estruturam o pensar, expressam o sentir e alimentam o ser. Desde menino gosto de ler, refletir sobre a vida e expressar o sentimento do mundo. E se o menino é pai do homem, como lembra Machado de Assis, o menino introspectivo, que fui, gerou o homem voltado à reflexão, que hoje sou. O curso de Letras aumentou em mim o fascínio pela palavra. O de Direito, bem como o ofício de professor, contribuíram para o intento de publicação do primeiro livro, e a oportunidade concedida pelo Jornal Nosso Tempo, ajudou a desenvolver a “veia” de articulista.
6 –
“O que vale nessa vida é o amor que compartilhamos com o irmão”. A oração tem conotação franciscana. O livro é assim e por que?
Antonio Cavalcante
Antes de ser franciscano, amor é divino, cristão, humano e até natural. Maturana chega a afimar que o amor é o fundamento biológico do fenômeno social. Pois sem o amor, entendido como a aceitação do outro junto a nós na convivência, não há socialização, e sem esta não há humanidade. O livro, nesse sentido, enfatiza as várias formas de amor (eros, philia e ágape) e também enfatiza o amor como fonte perene de comunicação e comunhão entre os seres humanos, que, respeitando e tratando o próximo como um “outro eu”, procuram estabelecer relações menos assimétricas, fundamentadas na vivência ética, como condição primeira para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
7 – Quantos livros já lançou, quais os títulos e de que falam?
Antonio Cavalcante
Antes de “o sentido da vida”, lancei “Direito, mito e metáfora: os lírios não nascem da lei”, que se apresenta como um compêndio de Introdução ao Direito, mas que também é classificado como Filosofia do Direito, uma vez que procura fazer uma abordagem não convencional de iniciação à ciência jurídica. Depois lancei “Bem-vindo ao direito do trabalho: doutrina, jurisprudência e história e casos da vida”, obra de iniciação ao Direito do Trabalho, que também apresenta uma abordagem diferenciada, enxertando a linguagem espontânea do povo ao discurso elaborado da doutrina jurídica, por entender que o popular e o erudito não são inconciliáveis.
8 – Escatologia – Num dos conceitos do vocábulo, pode se dizer: “se refere ao término da história da salvação”. E por que o livro o Sentido da Vida?
Antonio Cavalcante
Escatologia é, acima de tudo, reflexão sobre o fim: da vida, do mundo, da história. Fim de mundo, porém, não significa necessariamente hecatombe ou destruição, como costumam mostrar alguns filmes do gênero. Pode significar também plenificação, a vida reinventada em um novo céu e uma nova terra Libertos das sombras da caverna, de que fala Platão, no plano escatológico poderemos ter uma visão mais clara do mundo, da vida e da história. E somente no plano escatológico é que possivelmente compreenderemos com mais profundidade o grande mistério, que é o sentido da vida.
9 – Na entrevista para o Linha Aberta (13-09-10) o autor diz: “estou em busca do sentido da vida!”. Para que serve o livro?
Antonio Cavalcante
Quando me refiro ao sentido da vida como mistério, este não se confunde com segredo, na concepção de Rhonda Byrne, em seu best seller, de algo secreto, linguagem cifrada, decodificada apenas por alguns poucos iluminados, mas que de repente se transforma em receita de auto-ajuda. Mistério não é o totalmente incompreensível, e sim o inexaurível. Mistério é verdade que se revela, mas que nunca se esgota. Qual ser humano conhece de forma absoluta o sentido da vida? A propósito, penso que “absoluto” é adjetivo inaplicável às coisas humanas, já que diz respeito à realidade plena, ilimitada, essencial, que não depende senão de si mesma para existir. Nesse sentido, o livro serve como um convite para mergulharmos mais e mais na busca de compreensão desse mistério.


September 16, 2010 at 3:44 pm Leave a comment

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