Sangue de nordestino

September 10, 2010 at 11:20 pm 1 comment


Na história das lutas contra a opressão e por melhores condições de vida em nosso país, o povo nordestino tem papel de destaque. Manuel Correia de Andrade, no livro Lutas camponesas do Nordeste, lembra que desde o período colonial a história é recheada de eventos que expressam o espírito combativo de nossa gente. Na revolta de cabanos, destaca a atuação de Antônio Timóteo e Vicente Ferreira de Paulo, filho “bastardo” do vigário de Goiana. Conta que na Balaiada os principais líderes eram um vaqueiro, chamado Raimundo Gomes, Preto Cosme, um escravo fugido, além do artesão que fazia balaio, apelido com o qual se tornou conhecido, e que deu nome à insurreição. Menciona ainda a participação de camponeses no ronco da abelha e no quebra-quilos da Paraíba, na revolta dos malês na Bahia, na Praieira em Pernambuco, sem esquecer a ação de cangaceiros e beatos, inspirados na valentia de Antônio Silvino e Lampião, bem como na fé engajada do Padre Cícero do Juazeiro.

Não bastasse digladiar contra a opressão social, nossa gente sempre teve que enfrentar uma antagonista natural de peso: a seca. A história registra, por exemplo, que de 1877 a 1879, o Nordeste foi assolado por uma terrível estiagem, que dizimou cerca de trinta mil pessoas. Foi o aziago 77, cantado nos versos de Rodrigues de Carvalho:

No tempo da seca grande,

Naquela crise maior,

Filho brigava com mãe,

Neto brigava com avó,

Brigavam por coisas boas,

Pelo beiju de potó,

Farinha de barriguda,

Já logrou um bom estado,

Na feira de Guarabira

Um litro por um cruzado.


De 77 p’ra cá,

Nosso Brasil está perdido,

Muito quem toque viola,

Muito rapaz enxerido,

Cavalos equipadores,

Muita mulher sem marido.

E noutros tempos, as mulheres ficavam sem os maridos porque estes tinham que migrar para arranjar do que comer. Foi assim, por exemplo, quando levas de nordestinos embrenharam-se nas matas amazônicas, durante o ciclo da borracha, fato lembrado por José de Freitas Nobre:

Cearense vai ao norte,

Sonhando áureos castelos,

Sai daqui robusto e forte,

Volta magro e amarelo.

E feliz quando voltava! Segundo Eduardo Galeano, estima-se que cerca de meio milhão de nordestinos sucumbiram às epidemias, ao impaludismo, tuberculose e beribéri, “na época do auge da goma. Este sinistro ossário foi o preço da indústria da borracha.”

Mesmo assim continuaram a edificar este imenso país. Viraram candangos na construção de Brasília, ajudaram a abrir a Transamazônica, a fincar no fundo do mar os pilares da Rio-Niterói e a erguer os arranha-céus da Paulista. E ainda hoje continuam, com a graça de Deus, sonhando e pelejando por dias melhores, ainda que tenham de derramar ou suar sangue, sangue de nordestino.

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Palavra de João Grilo Um galo para Asclépio

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  • 1. SOS DIREITOS HUMANOS  |  September 11, 2010 at 12:59 pm

    DENÚNCIA: SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ – UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONHECE PORQUE JAMAIS FOI CONTADA

    “As Vítimas do Massacre do Sítio Caldeirão
    têm direito inalienável à Verdade, Memória,
    História e Justiça!” Otoniel Ajala Dourado

    O MASSACRE DELETADO DOS LIVROS DE HISTÓRIA

    No município de CRATO, interior do CEARÁ, BRASIL, houve um crime idêntico ao do “Araguaia”, foi a CHACINA praticada pelo Exército e Polícia Militar em 10.05.1937, contra a comunidade de camponeses católicos do SÍTIO DA SANTA CRUZ DO DESERTO ou SÍTIO CALDEIRÃO, cujo líder religioso era o beato “JOSÉ LOURENÇO GOMES DA SILVA”, paraibano negro de Pilões de Dentro, seguidor do padre CÍCERO ROMÃO BATISTA, encarados como “socialistas periculosos”.

    O CRIME DE LESA HUMANIDADE

    O crime iniciou-se com um bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como metralhadoras, fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram na “MATA CAVALOS”, SERRA DO CRUZEIRO, mulheres, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como juízes e algozes. Meses após, JOSÉ GERALDO DA CRUZ, ex-prefeito de Juazeiro do Norte/CE, encontrou num local da Chapada do Araripe, 16 crânios de crianças.

    A AÇÃO CIVIL PÚBLICA PROPOSTA PELA SOS DIREITOS HUMANOS

    Como o crime praticado pelo Exército e Polícia Militar do Ceará é de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO é IMPRESCRITÍVEL conforme legislação brasileira e Acordos e Convenções internacionais, a SOS DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza – CE, ajuizou em 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo: a) que seja informada a localização da COVA COLETIVA, b) a exumação dos restos mortais, sua identificação através de DNA e enterro digno para as vítimas, c) liberação dos documentos sobre a chacina e sua inclusão na história oficial brasileira, d) indenização aos descendentes das vítimas e sobreviventes no valor de R$500 mil reais, e) outros pedidos

    A EXTINÇÃO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO DA AÇÃO

    A Ação Civil Pública foi distribuída para o Juiz substituto da 1ª Vara Federal em Fortaleza/CE e depois, para a 16ª Vara Federal em Juazeiro do Norte/CE, e lá em 16.09.2009, extinta sem julgamento do mérito, a pedido do MPF.

    RAZÕES DO RECURSO DA SOS DIREITOS HUMANOS PERANTE O TRF5

    A SOS DIREITOS HUMANOS apelou para o Tribunal Regional da 5ª Região em Recife/PE, argumentando que: a) não há prescrição porque o massacre do SÍTIO CALDEIRÃO é um crime de LESA HUMANIDADE, b) os restos mortais das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO não desapareceram da Chapada do Araripe a exemplo da família do CZAR ROMANOV, que foi morta no ano de 1918 e a ossada encontrada nos anos de 1991 e 2007;

    A SOS DIREITOS HUMANOS DENUNCIA O BRASIL PERANTE A OEA

    A SOS DIREITOS HUMANOS, como os familiares das vítimas da GUERRILHA DO ARAGUAIA, denunciou no ano de 2009, o governo brasileiro na Organização dos Estados Americanos – OEA, pelo DESAPARECIMENTO FORÇADO de 1000 pessoas do SÍTIO CALDEIRÃO.

    QUEM PODE ENCONTRAR A COVA COLETIVA

    A “URCA” e a “UFC” com seu RADAR DE PENETRAÇÃO NO SOLO (GPR) podem localizar a cova coletiva, mas não o fazem porque para elas, os fósseis de peixes do “GEOPARK ARARIPE” são mais importantes que as vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO.

    A COMISSÃO DA VERDADE

    A SOS DIREITOS HUMANOS em julho de 2010 passou a receber apoio da OAB/CE pelo presidente da entidade Dr. Valdetário Monteiro, nas buscas da COVA COLETIVA das vítimas do Sítio Caldeirão, e continua pedindo aos internautas divulguem a notícia, bem como a envie para seus representantes no Legislativo, solicitando um pronunciamento exigindo do Governo Federal a localização da COVA COLETIVA das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO.

    Paz e Solidariedade,

    Dr. Otoniel Ajala Dourado
    OAB/CE 9288 – 85 8613.1197
    Presidente da SOS – DIREITOS HUMANOS
    Editor-Chefe da Revista SOS DIREITOS HUMANOS
    Membro da CDAA da OAB/CE
    http://www.sosdireitoshumanos.org.br
    sosdireitoshumanos@ig.com.br
    http://revistasosdireitoshumanos.blogspot.com

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