A jumenta de Balaão

September 17, 2010 at 10:41 pm 2 comments



Aprendi com um professor do curso de Teologia, que não devemos estudar a Bíblia como quem olha uma fotografia, mas radiografá-la, como se faz com os raios X. Isso porque a Verdade Revelada é mais profunda do que aquilo que se pode ver na superfície das palavras. Dizer, por exemplo, que o homem foi modelado com argila, pode ser uma forma imorredoura de se falar que ele foi formado a partir dos mesmos elementos que compõem a terra, tanto que o nome Adão significa “o que vem do solo”. Além disso, não se deve perder de vista que a linguagem bíblica não é estritamente histórica, o que a tornaria refém do tempo; e que os textos sagrados, em sua exuberância inesgotável, compreendem diversos gêneros literários, incluindo narrações históricas, relatos didáticos, hinos, poemas, cartas e até mesmo fábulas, como a da jumenta de Balaão, contada no capítulo 22 do livro dos Números.

Balaão, adivinho das bandas do rio Eufrates, é chamado por Balac, rei de Moab, para amaldiçoar o povo judeu, considerado uma ameaça pelo rei. Todavia, Balaão havia reconhecido Iahweh como seu Deus, e em vez de lançar a maldição encomendada, pronuncia um poema de bênçãos sobre os filhos de Israel. Antes, porém, acontece um caso fabuloso. Na viagem de Balaão rumo aos domínios do rei Balac, a jumenta do profeta vê o Anjo do Senhor na estrada, com a espada desembainhada, e se desvia da rota para salvar o seu dono. Este, com raiva, espanca a coitada da mula. Iahweh, então, abre a boca da burrinha, que se põe a falar: “Que te fiz eu, para me teres espancado já por três vezes?”, pergunta o animal. “É porque zombaste de mim! Se eu tivesse uma espada na mão já te haveria matado”, responde Balaão enfurecido. O animal, entretanto, não se faz de rogado e retruca: “Não sou eu a tua jumenta, que te serve de montaria toda a vida e até o dia de hoje? Tenho o costume de agir assim contigo?” Nisso, Iahweh abre os olhos de Balaão. Este agora vê o que antes só o animal vira, e, caindo em si, prostra-se diante do Anjo do Senhor. Moral da história: quem, naquele caso, é mais clarividente, a jumenta ou o profeta?

Há quem diga que o caso da jumenta falante é uma fábula independente, enxertada na narrativa sobre o mago Balaão, de forma um tanto desconjuntada. Mas isso não quer dizer que da fábula não se possam retirar mensagens edificantes. Eu sempre fui fascinado por fábulas, histórias vivas e imaginativas que, como toda narrativa de significação simbólica, permitem falar verdades sem os limites da racionalidade estrita. Nelas, animais falam e nos dão lições de vida. Mas será que eles fazem isso somente nas fábulas? Não existem cães e gatos, por exemplo, que compreendem melhor seus donos, e são compreendidos por estes, mais do que muita gente que não late nem mia? E a marcha dos pinguins, “a mais bela das histórias que a natureza inventou” e virou documentário vencedor de Oscar, não é uma aula magistral da sabedoria do instinto? E qual o sentido de um místico como São Francisco conversar com os animais, ou Santo Antonio pregar seu sermão aos peixes?

Eu, de minha parte, penso que animais podem conversar e nos ensinar não só nas fábulas, mas fora delas. Nós é que muitas vezes nos comportamos como Balaão, enxergando menos que a jumenta. Talvez por insistirmos em procurar as verdades reveladas na palavra e na vida como quem olha uma fotografia, e não com o olhar penetrante dos raios X, como nos ensinou nosso professor de Teologia.*

* Refiro-me ao professor Paulo Afonso Dornelas Borges, que em 14/01/2009, faleceu, vítima de acidente automobilístico, a quem presto homenagem por tudo de bom que nos ensinou com suas aulas e, principalmente, com seu exemplo de vida.

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Entry filed under: Fé e vida.

Gilgamesh A sabedoria de Agur

2 Comments Add your own

  • 1. Alexandre Roque  |  September 21, 2010 at 1:47 am

    Perfeito, Antônio. Percebo que a leitura meramente literal das Sagradas Escrituras somente ofusca sua beleza e seu potencial de ensino e transformação do caráter do homem, afastando-o da verdadeira mensagem.

    Reply
  • 2. Hugo Dias Perpétuo  |  September 22, 2010 at 1:17 pm

    Muito bom, Antônio
    A leitura preconceituosa das escrituras somente limita o aperfeiçoamento da natureza humana.
    meus parabens pelo blog

    Reply

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