Então eu vi

December 4, 2010 at 8:27 pm Leave a comment



(texto escrito após o rompimento da barragem de Camará, em junho de 2004, depois que voltei de Alagoa Grande-PB, no dia que se seguiu ao dilúvio)

Então eu vi:

Depois que a água baixou, uma cidade mergulhada no caos. Pessoas que iam e vinham, chafurdando na lama, recolhendo dos escombros pedaços de coisas e de lembranças de toda uma vida. Na soleira da porta, uma senhora idosa, de olhar um tanto perdido, recortava o pouco que restava do velho álbum de fotografias. Bombeiros e populares, juntos, demoliam algumas das paredes de casas, que teimaram em ficar de pé, e que punham em risco a integridade dos transeuntes. Muita lama, muita lama, muita lama. Um helicóptero pousado na entrada da cidade denunciava que o caso não era tão comum. Não se tratava de uma chuva mais forte, mas de uma catástrofe causada pelo rompimento de uma barragem, que provocou um verdadeiro dilúvio na cidade. A coisa foi tão séria que deslocou a atenção do governo central e das autoridades em geral. Veio até a grande imprensa para exibir em rede nacional as imagens do cataclismo. E, embora aquele ainda não fosse o momento mais oportuno, algo no ar parecia clamar por justiça.

Caminhando pelo grande lamaceiro em que se transformou a cidade, ouvi relatos comoventes de quem viveu os momentos da tragédia: a água descera arrasadora, carregando tudo o que encontrava em seu caminho; correnteza medonha que arrastou geladeira e fogão, gado e gente. Não deu tempo de salvar quase nada a não ser a própria pele. Quantos anos de trabalho duro, economias de uma vida que em poucas horas viraram lodo.

Mas em meio ao caos também vi solidariedade e esperança. Gente enxugando o chão, os pertences e as lágrimas do próximo. Gente abrindo o coração e a morada, partilhando o guarda-roupa e os potes de mantimentos.

Foi quando comprovei, na prática, que é diante da tragédia — e pena que muitas vezes somente quando ela acontece — que nós, humanos, aprendemos a ser mais humanos, e a compreender que o amor ao irmão é muito mais que emoção à flor da pele, tema para um eloquente discurso ou mote para um piedoso sermão.

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E agora, Maria? (Parte II). O direito de morrer dignamente: reflexões sobre eutanásia, distanásia e ortotanásia na perspectiva do biodireito e dos direitos humanos.

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