O despertar do Ano Novo.

December 27, 2010 at 12:16 am Leave a comment



Aprendemos na Receita de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade, que para ganharmos um Ano Novo não precisamos tomar champanhe ou qualquer outra birita; fazer listas de bons propósitos, que logo esquecemos guardadas na gaveta; chorarmos arrependidos pelos erros cometidos no ano velho; ou acreditarmos ingenuamente que, a partir de janeiro tudo será diferente, por simples decreto da esperança. Para ganharmos um ano verdadeiramente novo, nós teremos de ser dignos dele, construí-lo, ou melhor, despertá-lo, pois, segundo o poeta, é dentro de cada de um de nós que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.

Despertar o Ano Novo bem que pode ser associado à palavra réveillon. Réveillon vem do verbo francês réveiller, que significa acordar. Já na sua etimologia, réveillon guarda a ideia de refeição festiva; de festa celebrada à noite, que invade a madrugada e desperta a aurora. Para tanto, há de ser sempre uma festa de muitos convivas, afinal, como nos ensina outro poeta, João Cabral de Melo Neto, um galo sozinho não tece a manhã; é preciso sempre uma comunhão de galos para tecer os fios de sol. E o réveillon, como despertar festivo num banquete de comunhão, pode ser a refeição após a Missa do Galo (le réveillon de Nöel) ou a ceia do dia de ano (le réveillon du jour de l’an), também chamado réveillon de São Silvestre, em homenagem à festa daquele santo, celebrada no 31 de dezembro.

São Silvestre foi Papa da Igreja Católica entre os anos 314 e 355 da era cristã. Antes de ser o Papa Silvestre I, ele teve que viver na clandestinidade para escapar da morte, na fase final da sistemática perseguição cristã perpetrada pelo império romano. Seu pontificado marcou a passagem do cristianismo, de uma igreja duramente reprimida para a religião oficial e triunfalista do império, o que não deixou de gerar muitos problemas, entre os quais a divisão do comando da Igreja entre Silvestre e Constantino, após a prodigiosa conversão deste.

Conta a lenda ou a história ─ talvez ambas, pois para mim não há uma sem a outra ─ que perto do Natal de 312, o imperador Constantino, antes das batalhas contra Maxêncio, viu e ouviu sinais do céu, que o convenceram de que as vitórias sobre o inimigo não seriam fruto apenas de estratégia militar, mas de intervenção divina. Vitorioso, ele proclamou em 313 o famoso edito de tolerância (edito de Milão), concedendo aos cristãos a igualdade de direito com outras religiões, e um ano depois, convocou o primeiro concílio ecumênico de Nicéia, realizado em 325.

Uma das grandes preocupações de Constantino era saber se Deus realmente existia e se Ele poderia ser Jesus. No panteão herdado por Constantino havia dezenas de deuses. Mas no fundo ele buscava a fé numa única divindade, criadora e provedora de todo o universo, que se revelou para o imperador como o Deus dos cristãos, origem, essência e fim da religião que, apesar da intensa perseguição, não só resistia, mas florescia não só pelo sangue dos mártires, como pela proliferação das comunidades, autênticas redes sociais de solidariedade entre os pobres. Por isso, a cruz que viu no céu antes das batalhas, mais do que um fenômeno astronômico, foi compreendida pelo imperador como um sinal dessa inteligência cósmica que ele tanto procurava, fazendo com que a partir de então o milagre acontecesse dentro do coração de Constantino.

Além do edito de Milão, Constantino decretou a devolução de bens da Igreja, confiscados no norte da África, e ordenou a seus oficiais africanos que respeitassem a liberdade do clero construir santuários naquele continente. São Silvestre, por sua vez, tornou-se conselheiro espiritual de Constantino, tendo batizado o imperador, sacramento que, milagrosamente, teria curado o soberano de uma lepra. Grato pela cura, o imperador doou terras ao Papado, que formaram a base do futuro Vaticano. A ligação entre o imperador e o Papa canonizado é tamanha que, entre as várias representações do santo, este costuma aparecer ao lado de Constantino ou batizando o imperador.

Não sei se os poetas Drummond e João Cabral tomavam alguma bebida na virada do ano. Não sei se Constantino e São Silvestre deixaram mofar em gavetas as listas de intenções para o ano novo, nem se choraram o arrependimento por erros porventura cometidos, como muitos de nós costumamos fazer nas iminências do réveillon. Mas certamente eles fizeram por merecer belíssimos anos novos, não daqueles remendados às carreiras, como observa Drummond, mas anos verdadeiramente novos nas sementinhas do vir-a-ser, novos até nos corações das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior), pois conseguiram realizar, cada qual do seu jeito, o milagre de despertar o Ano Novo que cochilava dentro de si desde sempre.

Feliz despertar do Ano Novo!

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