Festas de padroeiro

January 28, 2011 at 9:39 pm 2 comments


Quando menino, meu pai me levava para passear durante a festa da padroeira. Muita gente zanzando na rua, outras andando nos brinquedos dos parques de diversão. A roda-gigante era a vedete. Nela as crianças podiam desafiar o medo de altura, sentindo aquele friozinho gostoso na barriga, e namorados podiam trocar juras de amor. A difusora do parque servia para dedicar música a um certo alguém. Eu gostava ainda de olhar o pavilhão, onde se apresentavam bandas que lembravam big bands. Obviamente, ficávamos do lado de fora, pois, naquele tempo, pavilhão era coisa para famílias da “sociedade”. Mas não deixava de me fascinar pela beleza da música executada pelas orquestras. Na volta para casa, meu pai comprava uma bengalinha enfeitada de fita colorida, para mim, um singelo e marcante souvenir.

Quando adolesci, mudei de cidade e de padroeiro. Esperava ansiosamente aquela festa, pois não havia muitas durante o ano. Por isso, a festa do padroeiro não deixava de ser uma boa ocasião para libertar alguns desejos contidos. Eu, desde jovem, nunca fui de beber, e minha timidez dificultava-me a paquera. Mas às vezes conseguia que alguma garota dançasse comigo até o raiar do dia. À tarde, meio enfadado, vestia a segunda roupa de fim de ano, para ir à missa e acompanhar a procissão, ao som da banda de música.

O caráter festivo de nossa religiosidade não é novidade. Nosso catolicismo sempre foi amigo de música, dança e foguetório. Costumava-se representar comédias, dançar e até namorar nas igrejas coloniais do Brasil. Festas, por sua vez, não se opõem necessariamente às práticas religiosas. A trajetória do povo de Deus sempre foi pontilhada de festas. Festas para celebrar a natureza e a história; festas de nascimento, de casamento e até de morte. As festas, diz o Padre Comblin, dão consistência ao presente: “um povo sem festas ficaria na pura repetição do seu passado indefinidamente sem renovação, ou absorvido pela preparação do futuro que nunca chega.” Por isso as festas são tão importantes para a formação das comunidades.

O mal é quando as festas populares deixam de ser comunicação, alegria e partilha entre as pessoas, para servirem a interesses escusos dos que se arvoram donos da festa ou donos do povo, ou quando nós mesmos abastardamos o sentido delas. Se até o Natal, quando manipulado pelo mercado, esvazia-se do significado da celebração do nascimento do Salvador, para tornar-se uma farra do consumo desenfreado, imagine o que pode acontecer quando degeneramos o sentido da festa do padroeiro… Grandes atrações artísticas em palcos abertos ao povo podem ser um bom exemplo de democratização da cultura e do entretenimento, mas também podem ser a repetição da velha política romana do pão e circo, para desviar a atenção das massas populares das suas verdadeiras necessidades. Brindar encontros e reencontros entre amigos é sinal de fraternidade, momento singular de alegria, é fruição do kairós, em que o tempo parece parar. Mas se o excesso da bebida nos leva à sarjeta, se é pretexto para atiçar a violência, o consumo de outras drogas, se é instrumento para fazer mal a nós mesmos e aos outros, para onde vai o sentido da festa do padroeiro?

Na Carta aos Gálatas, Paulo lembra que para ser livres, Cristo nos libertou. Mas também exorta que o mau uso da liberdade pode resultar em ódios, discórdias, invejas, bebedeiras, orgias e outros males. Uma festa não é inevitavelmente um momento para se cultivar as obras da carne. É possível vivê-la com alegria, paz, bondade e continência. E isso não depende da vontade dos nossos santos padroeiros, pois eles respeitam nossa vocação para a liberdade.

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Um convite à filosofia, na hipermodernidade Mitos da lei

2 Comments Add your own

  • 1. severo  |  February 2, 2011 at 11:17 pm

    Boa noite. Parabéns ao excelentíssimo Dr.Professor Antonio cavalcante pelo matéria que me recordar tambémm um pouco de minha infância. Tive o grande prazer de ter tido como meu professor de História João Epifãnio da Costa que dispensa apresentação pela capacidade, coerência, responsabilidade, disciplina, amor a profissão e contribuição impar na formação muitos alunos do colégio M.J.M.B abraço

    Reply
  • 2. Antônio Cavalcante  |  February 5, 2011 at 8:22 pm

    Caro Severo,
    obrigado pelas palavras tão gentis. Um abraço.

    Reply

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