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Saudades do Uirapuru

Sou filho e sobrinho de músicos. Meu pai, João Epifanio, era professor de música. Como eu gostava de vê-lo e ouvi-lo lendo partituras e tocando o clarinete. Com ele aprendi um pouco de uma coisa e de outra. O irmão de meu pai, José Henriques da Costa, mais conhecido como Zé Pereira, foi o grande maestro de banda de música da Serra da Raiz.

Meu pai também formava corais com seus alunos em Guarabira. Trazia para nossa casa rapazes e moças para ensaiar as músicas cantadas a várias vozes, e eu, ainda criança, ficava encantado com os ensaios e apresentações do coral, do qual posteriormente passei a fazer parte. Em Guarabira, lembro também de corais organizados pelo professor Domingos Fragoso, uma das amizades musicais de meu pai.

Essas amizades musicais nos renderam momentos inesquecíveis. Meu pai adorava receber pessoas em casa. Certo dia, ele disse ao grande maestro Pedro Santos: ─ Qualquer dia desses apareça lá em casa, que será um prazer. E não é que o maestro apareceu mesmo? Num ônibus, levando junto com ele o coral da Universidade Federal da Paraíba e uma orquestra de câmara. Nesse tempo, morávamos em Serra da Raiz, e a cidade era deficiente telefônica. Somente um posto, com mensageiro para dar recados nas casas, e às vezes o telefone dava problema. Daí que, por falta de comunicação mais segura, a chegada dos músicos foi uma surpresa para nós. De início, foi aquele corre-corre, principalmente da parte de minha mãe, para acolher decentemente as visitas ilustres.Mas se na cidade faltava telefonia, sobrava hospitalidade. Rapidamente, vários amigos se oferecerem para também hospedar os universitários. No final foi tudo maravilhoso. Pena que não tivemos como gravar em vídeo aquelas apresentações de rara beleza.

Por falar em vídeo, um dia destes, num site de relacionamento, um amigo postou um vídeo antigo, que eu desconhecia, de Nilo Amaro e seus cantores de ébano. Para minha surpresa, a música cantada pelo grupo é Uirapuru, que fazia parte do repertório dos nossos corais, corais dos rapazes e moças que cantavam lá em casa, corais do professor Domingos, corais de meu pai, com suas inesquecíveis amizades musicais.

March 4, 2011 at 8:25 pm Leave a comment

De carnavais e quaresmas


Se nós somos o intervalo entre nosso desejo e aquilo que os desejos dos outros fazem de nós, como diz o poeta Fernando Pessoa, há momentos na vida que em que podemos reduzir ou ampliar esse intervalo. Carnavais e quaresmas podem ser alguns desses momentos.

Os carnavais, desde os primórdios, apresentam-se como criação de um mundo não apenas pelo avesso, mas como um mundo menos desigual. Embora não haja certeza quanto às suas origens ─ pois geralmente sobre origens, quem fala não sabe e quem sabe não fala ─, existem especulações de que os primeiros carnavais eram festas agrárias. No rigor do inverno, todo mundo ficava encolhidinho em suas locas. Mas na primavera, tudo se transformava em festa: cantos e danças pelo sol que chegava, trazendo consigo a possibilidade de cultivar a terra, para dela colher o pão de cada dia. Era momento para a alegria espantar coisas ruins, que ficavam para trás.

Em Roma havia as festas em homenagem a Saturno, deus da agricultura. Conta-se que as saturnálias eram marcadas por música, comilança e sexo, além de serem momentos para libertação das convenções sociais. Escravos faziam-se senhores e podiam desfrutar a igualdade efêmera do mundo às avessas.

Na Idade Média, os carnavais ocupavam lugar central na vida das comunidades. Havia ainda a festa dos tolos, a festa do asno e o riso pascal, e mesmo as festas religiosas tinham um lado cômico, com desfile de bufões e bobos. Com tais festejos, a cultura medieval construía, no dizer de Bakhtin, um segundo mundo. Era um mundo de cabeça para baixo, no qual as pessoas habitavam em ocasiões especiais. Mas logo as cinzas quaresmais cuidavam de desvirar o mundo, recolocando-o no lugar de costume, com tudo de bom e de ruim que decorria dessa revirada. Uma das coisas ruins era a sevícia do corpo, como castigo pelos excessos do carnaval. Nas viradas e reviradas do mundo, o corpo humano, que historicamente tem sido objeto de exercício do poder, como nos faz ver Michel Foucault, sofria com a tensão entre carnavais e quaresmas. Sobrecarregado com os desmandos dos primeiros, era supliciado pelas penitências das últimas, sem maiores escrúpulos.

No mundo de hoje, carnavais e quaresmas não têm o mesmo sentido que tinham na cultural medieval. Mas podem, ambos, ser momentos tanto de libertação e autoconhecimento, quanto de escravização e alheamento. Se a nossa alegria nos carnavais depende da vassalagem às drogas ou da exploração indevida do corpo; se os festejos de momo não servem para nos libertar das amarras sociais e nos tornar menos desiguais, e sim para satisfazer aos interesses econômicos de uns poucos que se apropriam das festas que deveriam ser do povo, de que nos vale a carnavalização temporária do mundo? Se as quaresmas não forem tempo de espontâneo recolhimento, de mergulho profundo em nossa interioridade, e sim tempo de cerimonialismo artificial, vazio e manipulável, elas serão mesmo o deserto necessário para cada um se conhecer e se encontrar consigo mesmo, e por conseguinte, encontrar-se com o divino dentro de cada um de nós?

Nos carnavais e nas quaresmas, o corpo não deixa de ser templo do espírito, sendo muito mais do que cárcere da alma. Viver bem ou mal os carnavais e as quaresmas da vida pode aumentar ou diminuir o intervalo entre nosso desejo e aquilo que os desejos dos outros fazem de nós, intervalo que, afinal, somos nós mesmos, como nos diz o poeta.

February 25, 2011 at 9:39 pm 2 comments

Festas de padroeiro


Quando menino, meu pai me levava para passear durante a festa da padroeira. Muita gente zanzando na rua, outras andando nos brinquedos dos parques de diversão. A roda-gigante era a vedete. Nela as crianças podiam desafiar o medo de altura, sentindo aquele friozinho gostoso na barriga, e namorados podiam trocar juras de amor. A difusora do parque servia para dedicar música a um certo alguém. Eu gostava ainda de olhar o pavilhão, onde se apresentavam bandas que lembravam big bands. Obviamente, ficávamos do lado de fora, pois, naquele tempo, pavilhão era coisa para famílias da “sociedade”. Mas não deixava de me fascinar pela beleza da música executada pelas orquestras. Na volta para casa, meu pai comprava uma bengalinha enfeitada de fita colorida, para mim, um singelo e marcante souvenir.

Quando adolesci, mudei de cidade e de padroeiro. Esperava ansiosamente aquela festa, pois não havia muitas durante o ano. Por isso, a festa do padroeiro não deixava de ser uma boa ocasião para libertar alguns desejos contidos. Eu, desde jovem, nunca fui de beber, e minha timidez dificultava-me a paquera. Mas às vezes conseguia que alguma garota dançasse comigo até o raiar do dia. À tarde, meio enfadado, vestia a segunda roupa de fim de ano, para ir à missa e acompanhar a procissão, ao som da banda de música.

O caráter festivo de nossa religiosidade não é novidade. Nosso catolicismo sempre foi amigo de música, dança e foguetório. Costumava-se representar comédias, dançar e até namorar nas igrejas coloniais do Brasil. Festas, por sua vez, não se opõem necessariamente às práticas religiosas. A trajetória do povo de Deus sempre foi pontilhada de festas. Festas para celebrar a natureza e a história; festas de nascimento, de casamento e até de morte. As festas, diz o Padre Comblin, dão consistência ao presente: “um povo sem festas ficaria na pura repetição do seu passado indefinidamente sem renovação, ou absorvido pela preparação do futuro que nunca chega.” Por isso as festas são tão importantes para a formação das comunidades.

O mal é quando as festas populares deixam de ser comunicação, alegria e partilha entre as pessoas, para servirem a interesses escusos dos que se arvoram donos da festa ou donos do povo, ou quando nós mesmos abastardamos o sentido delas. Se até o Natal, quando manipulado pelo mercado, esvazia-se do significado da celebração do nascimento do Salvador, para tornar-se uma farra do consumo desenfreado, imagine o que pode acontecer quando degeneramos o sentido da festa do padroeiro… Grandes atrações artísticas em palcos abertos ao povo podem ser um bom exemplo de democratização da cultura e do entretenimento, mas também podem ser a repetição da velha política romana do pão e circo, para desviar a atenção das massas populares das suas verdadeiras necessidades. Brindar encontros e reencontros entre amigos é sinal de fraternidade, momento singular de alegria, é fruição do kairós, em que o tempo parece parar. Mas se o excesso da bebida nos leva à sarjeta, se é pretexto para atiçar a violência, o consumo de outras drogas, se é instrumento para fazer mal a nós mesmos e aos outros, para onde vai o sentido da festa do padroeiro?

Na Carta aos Gálatas, Paulo lembra que para ser livres, Cristo nos libertou. Mas também exorta que o mau uso da liberdade pode resultar em ódios, discórdias, invejas, bebedeiras, orgias e outros males. Uma festa não é inevitavelmente um momento para se cultivar as obras da carne. É possível vivê-la com alegria, paz, bondade e continência. E isso não depende da vontade dos nossos santos padroeiros, pois eles respeitam nossa vocação para a liberdade.

January 28, 2011 at 9:39 pm 2 comments

O coração tem razões que a razão desconhece


Texto adaptado do original de Max Shulman. “O amor é uma falácia”, in As calcinhas cor de rosa do capitão e outros contos humorísticos, p. 62-90 – extraído do livro Pensando melhor: iniciação ao filosofar, de Angélica Sátiro e Ana Míriam Wuensch. 3 ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 78-83.

As personagens e suas características:


PEDRO: adolescente astuto, intelectual, perspicaz. Nele, a razão predomina sobre a emoção. Possuía fortes “razões” para namorar Vera, uma vez que a emoção, por si só, não o levaria a nada.


JOÃO: jovem alegre, agradável, mas de cabeça vazia; andava sempre junto de Vera, dando a entender possível namoro.


VERA: uma gatinha de 16 anos, sempre na moda e alegre.


Na hora do recreio, no pátio do colégio, Pedro aproxima-se de João e pergunta:


Por que você está triste, João? Está doente?


─ Não, cara, é que não tenho uma moto. Já pensou quantas garotas eu não conquistaria com uma 250 cilindradas?


─ Nenhuma amigo, nenhuma do porte estético de Vera. Se você tivesse uma moto, só conquistaria “patricinhas” ou “peruas”, pois as pessoas atraem pelo que são e não pelo que têm ─ respondeu Pedro.


─ Eu faria qualquer coisa para conseguir uma moto. Qualquer coisa!


Pedro sabia que João e Vera eram muito chegados e, por isso, perguntou:


João, você namora Vera?


Acho que ela é legal, mas não sei se isso poderia ser considerado namoro. Por quê?


Passado o mês de férias, julho, ambos retornaram ao colégio e continuaram a conversa:


─ Já conseguiu a moto, João?


─ Não, Pedro, não tenho dinheiro para comprá-la.


─ Pois eu tenho uma moto. Meu irmão mudou-se para os Estados Unidos e deixou-a pra mim. Como eu não gosto de moto…


─ Mas que legal, cara! Quando posso buscá-la?


─ Hoje mesmo, se quiser. Mas, para ficar com ela, terá que me dar suas coleções de livros e revistas.


─ Fechado, cara. Eu não leio mesmo…


─ Mas há uma condição: não me impeça de tentar conquistar a Vera.


Fechadíssimo, irmão!


Pedro, ajudado por João, marca um encontro com Vera na quadra de peteca do colégio. Fica decepcionado com a ignorância de Vera e decide ensinar-lhe lógica.


No encontro seguinte, Vera pergunta para Pedro:


─ Sobre o que conversaremos?


─ Lógica. Lógica é a ciência do pensamento. Para pensar corretamente, devemos antes considerar alguns erros comuns de raciocínio chamados sofismas ou falácias.

Primeiro, vamos examinar o sofisma chamado generalização não-qualificada. Por exemplo: “Leite é bom para saúde. Por isso, todos devem tomar leite”.


─ Eu concordo ─ disse ela, séria ─ Acho que leite é ótimo para todo mundo.


─ Vera, esse argumento é um sofisma. Quer ver? Se você tivesse alergia a leite, ele seria um veneno para sua saúde. E são muitas as pessoas que têm alergia a leite. Por isso, o correto seria dizer: “Leite geralmente é bom para saúde”. Entendeu?


─ Não. Mas continue falando.


─ O próximo sofisma é chamado generalização apressada. Preste atenção: “Você não sabe falar grego, eu não sei falar grego. João não sabe falar grego. Então, devo concluir que ninguém no colégio sabe falar grego”.


─ É mesmo? ─ perguntou Vera, surpresa. ─ Ninguém?


─ Esse é outro sofisma. A generalização foi feita de maneira muito apressada. A conclusão se baseou em exemplos insuficientes.


─ Ei, você conhece outros sofismas? É mais engraçado do que dançar!


─ Bem, então escute o sofisma chamado ignorância de causa: “Alexandre viu um gato preto antes de escorregar. Logo, ele escorregou porque viu um gato preto”.


─ Eu conheço um caso assim ─ disse ela ─ Bernadete viu um gato preto e logo depois o namorado dela teve um acidente de…


─ Mas Vera, esse também é um sofisma. Gatos não dão azar. Alexandre não escorregou simplesmente porque viu um gato preto. Se você culpar o gato, será acusada de ignorância de causa.


─ Nunca mais farei isso, prometo. Você ficou zangado?


─ Não, não fiquei.


─ Então fale mais sobre os sofismas.


─ Certo. Vamos tentar as premissas contraditórias.


Sim, vamos.


─ “Se Deus é capaz de fazer qualquer coisa, pode criar uma pedra tão pesada que Ele próprio não consiga carregar?”


─ Claro! ─ ela respondeu prontamente.


─ Mas, se Ele pode fazer qualquer coisa, também pode levantar a pedra…


─ É mesmo! Bem, então acho que Ele não pode fazer a pedra.


─ Mas Ele pode fazer tudo!


Ela balançou a cabeça:


─ Eu estou toda confusa!


─ Claro que está. Sabe, quando uma das premissas de um argumento contradiz a outra, não pode haver argumento.


Pedro consultou o relógio e disse que era melhor parar por ali. Recomeçariam no dia seguinte.


─ Hoje nosso primeiro sofisma chama-se por misericórdia. Ouça: “Um homem se candidatou a um emprego. Quando o patrão perguntou sobre as suas qualificações, ele respondeu que tinha filhos, que a mulher era aleijada, as crianças não tinham o que comer, nenhuma roupa para vestir, nenhuma cama, nenhum cobertor e o inverno estava chegando”.


Uma lágrima rolou pelo rosto de Vera:


─ Oh, isso é horrível!


─ Sim, é horrível – concordou Pedro – mas não é argumento. O homem apelou para a misericórdia e a piedade do patrão. Usou o sofisma por misericórdia. Entendeu?


─ Você tem um lenço? ─ choramingou ela.


Agora vamos discutir falsa analogia. Por exemplo: “Deveria ser permitido aos estudantes consultar livros durante as provas. Afinal de contas, cirurgiões têm raios X para guiá-los durante as operações; engenheiros usam plantas quando vão construir casas.” Então, por que os estudantes não podem consultar livros?


─ Puxa, essa é a idéia mais genial que ouvi nos últimos anos!


─ Vera, o argumento está errado. Médicos e engenheiros não estão fazendo provas para saber quanto aprenderam, mas os estudantes estão. As situações são completamente diferentes, e por isso o argumento não tem valor.


─ Eu ainda acho que é uma boa idéia.


─ Quer conhecer um sofisma chamado hipótese contrária ao fato?


─ Isso soa delicioso!


─ Escute: “Se madame Curie não tivesse deixado uma chapa fotográfica numa gaveta com um pedaço de uramita, o mundo hoje não conheceria nada sobre o rádio.”


─ Claro! Você viu o que a televisão disse sobre isso? Foi incrível!


─ Se você esquecesse a televisão por um momento, eu mostraria que essa afirmação é um sofisma. Talvez madame Curie não tivesse feito sua descoberta. Talvez muita coisa pudesse ter acontecido. O certo, porém, é que não se pode partir de uma hipótese que não é verdadeira e daí querer que ela sustente conclusões.

Pedro, já sem esperança de que Vera pudesse pensar logicamente, resolveu dar-lhe a última chance:


─ O próximo sofisma chama-se envenenando o poço – disse, com ar de frustrado.


─ Que engraçadinho!


─ “Dois homens estão prestes a iniciar um debate. O primeiro levanta-se e diz: ‘meu adversário é um grande mentiroso. Não se pode acreditar no que ele diz’…” Agora pense, pelo amor de Deus. Pense firmemente. O que está errado?


─ Não é justo. Quem vai acreditar no segundo homem se o primeiro o chama de mentiroso antes mesmo que ele comece a falar?


─ Certo – gritou Pedro,vibrando de alegria. – 100% certo! Não é justo. O primeiro homem “envenenou o poço” antes que alguém pudesse beber a água! Vera, estou orgulhoso de você!


─ Oh, obrigada!


─ Agora, vejamos o petição de princípio. Por exemplo: “O cigarro prejudica a saúde porque faz mal ao organismo”.


─ É claro que a afirmativa é infantil. É como se dissesse: “prejudica porque prejudica”. Não explica nada.


─ Vera, você é um gênio. Esse sofisma toma como verdade demonstrada justamente aquilo que está em discussão. Veja, minha querida, as coisas não são tão difíceis. Tudo o que você deve fazer é se concentrar, pensar, examinar, avaliar. Bem vamos rever tudo o que aprendemos.


─ Está bem.


Cinco dias depois, Vera sabia tudo sobre lógica. Pedro estava orgulhoso, pois ele, e só ele, ensinara-a a pensar corretamente. Agora sim, ela era digna de seu amor.


Assim, ele decidiu revelar seus sentimentos.


─ Vera, hoje não vamos mais conversar sobre sofismas.


─ Oh, que pena!


─ Minha querida, nós já passamos cinco dias juntos. Está claro que estamos bem entrosados.


─ “Generalização apressada” – ela disse.


Oh, desculpe!


─ Generalização apressada – repetiu ela. – Como você pode dizer que estamos bem entrosados baseado em apenas cinco encontros?


─ Minha querida – falou Pedro, acariciando-lhe as mãos. – Cinco encontros são suficientes. Afinal de contas, você não precisa comer todo o bolo para saber se ele é bom.


─ “Falsa analogia” – disparou ela. – Não sou bolo, sou uma moça.


Aí, Pedro resolveu mudar de tática.


─ Vera, eu te amo. Você é o mundo para mim. Por favor, meu amor, diga que vai me namorar firme. Porque, do contrário, minha vida não terá sentido. Eu definharei. Vou me recusar a comer.


─ “Por misericórdia” – ela acusou.


─ Bem, Vera – disse Pedro, forçando um sorriso –, você aprendeu mesmo os sofismas.


─ É, aprendi.


─ E quem os ensinou?


─ Você.


─ Está certo. Então, você me deve alguma coisa, não deve? Se eu não a procurasse, você nunca teria aprendido nada sobre sofismas.


─ “Hipótese contrária ao fato”.


─ Vera, você não deve tomar tudo ao pé da letra! Sabe que as coisas que aprendeu na escola não têm nada a ver com a vida.


─ “Generalização não-qualificada”.


Pedro perdeu a paciência.


─ Escute, você vai ou não vai ser minha namorada?


─ Não vou.


─ Por que não?


─ Porque esta manhã prometi a João que seria a namorada dele.


─ Aquele rato! – gritou Pedro, chutando as flores do jardim. – Você não pode namorar esse cara, Vera. É um mentiroso. Um chato. Um rato!


─ “Envenenando o poço” – disse Vera. – E pare de gritar. Acho que gritar também é um sofisma.


Com um tremendo esforço, Pedro baixou a voz, controlou-se e disse:


─ Está bem. Vamos analisar esse caso logicamente. Como você poderia escolher o João? Olhe pra mim: um aluno brilhante, um tremendo intelectual, bonito, um cara com o futuro garantido. Olhe para o João: um cara-de-pau, vazio, um vagabundo. Pode me dar uma razão lógica para ficar com ele?


─ Claro que posso. Ele tem uma moto – respondeu Vera, correndo para montar na garupa da motocicleta de João.


Pedro, com profunda tristeza, gritou com raiva para que Vera pudesse ouvir:


─ O amor é um sofisma porque amar é sofismar!


─ “Petição de principio” – berrou Vera, agarrada à cintura de João, na moto que arrancava velozmente.


January 25, 2011 at 2:21 pm Leave a comment

QUATRO DISCURSOS (1)



Como aluno, sempre fui muito calado em sala de aula. Acho que era mais mudo que São Tomás de Aquino, na época em que era apelidado de “boi mudo.” No entanto, quando instado pelos professores, gostava de falar em público. Terminei sendo escolhido como orador de turmas, em alguns cursos que frequentei. Compartilho, agora, esses discursos, não com a presunção de que sejam modelos de oratória, mas como recordação e homenagem. Recordação de momentos felizes de minha vida; homenagem a professores, colegas, familiares e a todos que tornaram possível tais momentos. Antes do texto de cada discurso, trago uma pequena contextualização do momento em que ele foi construído, afinal, não existe texto sem contexto.

LETRAS, 1983

Aos vinte anos de idade, Deus me permitiu concluir o curso de Letras, na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guarabira (FAFIG). O Diretor da Faculdade era o professor José Barbosa da Silva, que também foi nosso professor. Suas aulas de E.P.B (Estudos de Problemas Brasileiros) eram fascinantes, provocando reflexão e debate sobre os grandes desafios a serem enfrentados por um povo que vivia os últimos anos dos governos militares. Foi o professor José Barbosa quem proferiu a nossa aula da saudade.

Guarabira, na época, tinha à frente de sua administração o prefeito Zenóbio Toscano, e como representante na Assembléia Legistativa o deputado Roberto Paulino. Ambos deram importante contribuição à nossa Faculdade, de modo especial para a construção do novo prédio, inaugurado poucos anos antes de nossa formatura. No primeiro ano do nosso curso, estudamos ainda no prédio do Colégio da Luz, alugado à FAFIG. O grande anseio da nossa comunidade era a federalização da Faculdade, que terminou não acontecendo. Todavia, quatro anos mais tarde, a Faculdade foi estadualizada, passando a fazer parte da UEPB.

Eis os nomes dos concluintes das duas turmas:

ESTUDOS SOCIAIS: Antonia Enedino Vicente, Cledinaldo Teles dos Santos, Enílcio Meira dos Santos, Elizabete Pacífico Gomes, Geraldo Teixeira da Costa (meu tio), Iran Ribeiro dos Santos, José Hugo Simões, Lúcia M. Ezequiel Cantalice, Maria da Soledade J. da Silva, Maria das Vitórias dos Santos, Maria de Fátima L. Barbosa, Maria Dias Ferreira, Maria Gorete Almeida Silva, Maria Ivete Cordeiro Rocha, Maria José de Souza Bezerra, Maria Licar de A. P. Monteiro, Maria Verônica B. de Araújo, Marilene Coutinho Barbosa, Marineide Bernardo da Silva, Marinez Lisboa Machado, Manoel Marcos Cordeiro, Mônica Cristina Guilherme Pereira, Naíde Bandeira de Souza, Necy Brayner de Oliveira, Norberto Marques Leite, Renalda Carlos Celestino, Renato Bizerril de Brito, Rosilany Galvão Simões, Terezinha Lucena Dias, Sílvia Barreto da Silva e Veralúcia Procópio Cardoso.

LETRAS: Antônio Cavalcante da Costa Neto, Antônio Irineu, Ana Maria Leal P. da Silva, Clemilson Alves de Souza, Edileuza Antas Diniz, Gilvania Batista Ramos da Cruz, José Tarcisio C. de Pontes, Lúcia Ângela dos A. Marreiro, Manoel Amancio dos Santos, Maria de Fátima de L. Rodrigues, Maria Gorett Freitas de Sousa, Marlene Lins Figueiredo, Maurício Moreira de Farias, Suelly Maria Maux Dias, Tereza Cristina de S. Pontes, Valdemar Arcanjo Soares e Zenilda Almeida da Silva.

A colação de grau e o baile de formatura aconteceram no Clube Recreativo Guarabirense.

Discurso de formatura do curso de Letras

Guarabira, 23 de julho de 1983

A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guarabira entrega, nesta data, mais uma parcela do produto de seu trabalho. Somos quarenta e oito concluintes, trinta e um de Estudos Sociais e dezessete de Letras, que hoje recebemos habilitação para o Magistério.

Alegria e gratidão são os sentimentos que nos envolvem neste momento. Alegria por atingirmos mais uma meta em nossas vidas, e gratidão a todos os que contribuíram para que pudéssemos atingi-la. Agradecemos aos nossos pais, familiares, professores e a todos os amigos que hoje partilham da nossa alegria. E, acima de tudo, a Deus, por esta dádiva que Ele nos oferece, já que a conclusão de um curso superior, no nosso país, ainda é privilégio de uma minoria.

Emoções nos arrebatam a momentos de êxtase, mas não devem fazer esquecer de estarmos sempre com os pés no chão. Por isso, paremos um pouco e pensemos na seriedade da missão que nos é atribuída a partir deste momento. Analisemos três aspectos fundamentais: o fato de recebermos a habilitação de professores, a situação da sociedade em que vamos atuar e o conseqüente desafio que a atual realidade nos impõe.

Nós somos professores. Pesemos bem estas palavras. Estamos realmente preparados? E os nossos alunos? Poderão eles se desenvolver plenamente tendo-nos como seus orientadores?

Desemprego, violência, analfabetismo, fome, marginalização, problemas e mais problemas embrulhados num grande “pacote,” atado pelas correntes da dependência econômica. Estamos diante de uma difícil realidade. É fato que as sociedades consumistas fabricam mecanismos de autodestruição que corroem as suas estruturas e corrompem os valores humanos. Nós brasileiros, em particular, vivemos um período crítico de nossa história. Conseguiremos encontrar a luz no fim do túnel?

É esse o grande desafio: sermos professores numa sociedade que se debate à procura de uma saída. Crise pressupõe solidariedade para a resolução dos problemas, se enfrentada por consciências bem formadas. O que importa é não permitir que sejamos tragados pelas ondas da desordem para não imergirmos no oceano do caos. E dentro dessa luta temos uma missão a cumprir. O desafio é um estímulo ao nosso próprio crescimento como pessoas. Para conseguirmos superar a crise é necessário não esquecer o compromisso com a propagação das verdades entre os nossos alunos, tendo o cuidado de não nos transformarmos em fantoches, nem contribuirmos para alienação. E, mesmo que sejamos forçados a “alugar” muito barato o nosso trabalho, façamos o possível para não sermos manipulados, pois em hipótese alguma devemos perder a nossa dignidade, vender a nossa consciência, nem enterrar na lama a fé que temos em nossos ideais.

Para finalizar, algumas palavras de reconhecimento devem ser ditas e um apelo precisa ser feito. Reconhecimento não se confunde com bajulação. Enquanto o primeiro é expressão de justiça e gratidão, a segunda geralmente é expressão de hipocrisia ou mediocridade. Por isso, é de maneira sincera que reconhecemos o esforço de todos os que têm trabalhado em prol na nossa Faculdade. Merece destaque a atuação do deputado Roberto Paulino e do prefeito Zenóbio Toscano, principalmente no que diz respeito à construção do atual prédio da FAFIG. Também não podemos deixar de mencionar o dinamismo do nosso ilustre diretor José Barbosa da Silva, e a eficiência de todo o corpo de funcionários desta instituição de ensino. A todos, o nosso muito obrigado. Quanto ao apelo, trata-se da federalização da nossa Faculdade. Fazemos este pedido às autoridades competentes, e em particular ao ilustre Secretário da Educação, professor José Jackson Carneiro de Carvalho, para que nos ajude a conseguir algo tão importante para a comunidade guarabirense e de toda a região do brejo paraibano. Acreditamos e confiamos que o senhor Secretário entrará na luta pela federalização da FAFIG, para que possamos ver concretizado brevemente o sonho de toda a coletividade.

Muito obrigado.

January 24, 2011 at 10:00 pm Leave a comment

QUATRO DISCURSOS (2)

DIREITO, 1988

Não me imaginava nunca fazendo o curso de Direito. Quando fiz a complementação do curso de Letras, em Campina Grande, funcionavam no mesmo prédio (Colégio Anita Cabral), os cursos de Letras e Direito. Mas parecíamos habitar mundos bem diferentes e distantes. Porém, com o incentivo (ou o empurrão) dos familiares, de modo especial de meu irmão, Tércio, acabei virando bacharel, e, mais uma vez, orador das turmas do curso de Direito da Universidade Federal da Paraíba.

A aula da saudade foi ministrada pela professora Ivanize Marinho de Menezes, na Escola de Prática Forense, que funcionava no prédio da antiga Faculdade de Direito, em João Pessoa. A sessão solene de colação de grau foi realizada no Cinê Banguê, do Espaço Cultural, e o baile de formatura, no Jangada Clube.

Estes foram os concluintes:

Abraão Brito Lira Beltrão, Agamenilde Dias Arruda, Ana Adelaide Guedes Pereira Rosa, Ana Maria da Costa, Antônio Cavalcante da Costa Neto, Arlan Costa Barbosa, Cláudia S. Lessa F. Virgolino, Dorgival Terceiro Neto Júnior, Eduardo Ramalho Rabenhorst, Edvaldo Brilhante da Silva Filho, Elson Amorim de Araújo, Fábio de Siqueira Miranda, Genival Martins Barbosa de Lima, Guilherme Costa Câmara, Hércules Soares Barbosa, Ivanilda Cardoso de M. Novais, João de Assis Silveira Marques, Jomário Sampaio Monteiro, José Augusto de Souza Peres Filho, José Hilton Ferreira da Silva, Júllia Cristina do Amaral Nóbrega, Licélia Maria Cordeiro de Souza, Manuel Maia de Vasconcelos Neto, Marcus Frederico Claudino Veras, Maria Amália Ferreira de Araújo, Maria das Neves Carneiro, Maria de Fàtima de Assis, Maria Elizabeth M. da Silva, Mário Fernandes de Oliveira Filho, Monaldo Godoi Fernandes, Nelson Pereira Lima, Nilton da Silva Alves, Onaldo Rocha de Queiroga, Oneill Guedes A. de Carvalho, Paula Reis de Andrade, Ribamar de Mello, Roberto Fernandes Correia, Rogério de Meneses Fialho Moreira, Romero Carneiro Feitosa, Roseberto Santos Correia, Rósula Kelly Medrado Almeida Passos, Sérgio Rique Pereira Gomes, Sílvio José da Silva, Solange Machado Cavalcanti, Telma Paiva Leite de Andrade, Telma Roberta Vasconcelos Motta, Teozimar Campos Moreira, Tereza Helena Maria de Paiva, Thalma Sampaio de Lucena, Vanina Nóbrega de Freitas Dias e Waldimar Queiroz de Lima.

Começamos o curso de Direito em 1984, época em que se viveu mais um período de redemocratização do país, e concluímos antes da promulgação da Constituição de 1988. O tempo em que se deu o curso foi marcado pela tensão entre a velha e nova ordem jurídica. As grandes discussões da Assembléia Nacional Constituinte, instalada em fevereiro de 1987, refletiam os clamores e as contradições dos diversos segmentos da sociedade e, ao mesmo tempo, faziam-se ecoar na vida desses mesmos segmentos.

Discurso de formatura do curso de Direito

João Pessoa, 08 de janeiro de 1988

É preciso ritos.

Exupéry.

Hoje, dia 8 de janeiro de 1988: colação de grau da turma concluinte do curso de Direito da Universidade Federal da Paraíba, turma que se orgulha em levar o nome do ilustre e saudoso Desembargador João Pereira Gomes. É mais um rito em nossas vidas.

O Direito é, antes de tudo, rito dos homens para solucionar conflitos da vida. A vida nada mais é do que o grande rito em que o homem, na construção da história e de si mesmo, vai renovando a cada dia, o rito da criação. Há o rito do trabalho e o rito do amor; o rito da guerra e o rito da paz. E como a própria vida, que é sempre nova a cada alvorecer, um rito jamais se repete, pois traz nas entranhas o mistério da renovação da existência humana.

Por isso o curso de Direito da UFPB, seus professores e alunos, em unidade com todos os que se fazem presentes a esta solenidade, revestem-se no manto festivo da alegria rediviva. É como se, saindo da aparente mesmice do cotidiano, fôssemos subitamente guindados ao monte da transfiguração.

Mas é justamente do cimo da colina que melhor podemos contemplar o vale. Desçamos o monte para uma breve investida nesse vale de lágrimas: o Brasil — que ironia — da Nova República! Nem é preciso dizer muito. Está tudo aí: crise econômica, crise política, crise social, crise moral, crise institucional, crise de valores. Estertores de uma nação em que a esperança morre à míngua, o sol da liberdade não brilha com raios tão fúlgidos sobre a imensa legião dos depauperados de todo gênero, e a justiça social ainda é simples acalanto a embalar os sonhos do gigante adormecido em berço esplêndido.

Todavia, sábias são as palavras do saudoso Presidente Tancredo Neves: “a esperança é o único patrimônio dos deserdados, e é a ela que recorrem as Nações, ao ressurgirem dos desastres históricos.” Apesar de tudo, esperemos que a partir do caos em que estamos sucumbindo, possa ser plasmado um novo cosmos no qual a esperança renasça qual fênix maravilhosa.

Deve-se falar em crise não por modismo, mas porque é nesse caos, caros colegas, que iremos fazer a hora e a história, como homens e mulheres do Direito. Idealismo, nesse contexto, pode soar como algo quixotesco. Só que alguma coisa tem que ser feita e ninguém o fará por nós. Estaremos todos “soltos nesse mundo largo…”

Portanto, este não é o momento para a apologia do ceticismo ou para o desespero. Afinal, estamos apenas no começo de uma jornada, que esperamos seja repleta de êxitos, e os desafios poderão ser superados com humildade e coragem, inteligência e boa vontade.

Voltemos, então, à colina. É hora de agradecer. Em primeiríssimo lugar, a Deus, Supremo Autor do Universo, da vida e dos homens, nossa Verdadeira Esperança; aos pais, co-autores nessa empreitada divina, e aos nossos familiares, o sincero reconhecimento por tudo o que, sem a sua ajuda, jamais conseguiríamos conquistar; aos mestres, cúmplices da nossa teimosia na interminável perseguição ao saber, o nosso muito obrigado.

A gratidão reflete a humildade dos sábios. Alguns agradecimentos específicos devem ser feitos: ao jurista e professor Dr. Tarcísio Burity, governador do nosso Estado, por todo apoio à vida jurídica paraibana; ao nosso paraninfo, Dr. Humberto Lucena, o senador da Paraíba, símbolo da luta pela redemocratização do país; ao patrono das turmas, engenheiro Zenóbio Toscano, o mais dinâmico prefeito da nossa Guarabira, hoje centenária; à Dra. Onélia Queiroga, nossa madrinha, professora exemplar, coordenadora zelosa e dedicada na luta pela criação do Centro de Ciências Jurídicas da nossa Universidade; ao Dr. Antônio Elias Queiroga, nosso ilustre professor, a homenagem especial da nossa turma, e a todos que, de alguma forma, contribuíram para a conclusão do nosso bacharelado, a eterna gratidão que jamais poderia ser plenamente expressa pela “úlltima flor do Lácio”, apesar de belissimamente inculta e esplendorosamente bela.

Por fim, apenas uma palavra aos colegas bacharelandos. Honremos a nossa vida como profissionais do Direito, que é lindo por ser dialético campo de batalha onde não há donos da verdade. Mais do que capacidade intelectual, busquemos a sabedoria. Aprendamos a lição do Único e Verdadeiro Mestre, que nos adverte para o fato de que a lei deve estar a serviço do homem e não deve ser um instrumento para escravizá-lo. Lembremos que acima dos códigos estão os fatos; acima da lei está a vida, e que os homens estão sedentos de vida e não apenas de leis, pois como afirma o poeta Carlos Drummond de Andrade, as leis não bastam; os lírios não nascem da lei.

O discurso pára por aqui. O rito da vida, porém, continua a fluir como rio perene que deságua no infinito. Parabéns aos responsáveis por este rito; boa sorte, companheiros bacharelandos; a todos, muito obrigado.

January 24, 2011 at 9:56 pm Leave a comment

QUATRO DISCURSOS (3)

ESPECIALIZAÇÃO EM METODOLOGIA DO ENSINO SUPERIOR, 2001.

Em 2000 e 2001, atuei como Juiz do Trabalho, respectivamente, nas cidades de Picuí e Areia, o que me permitiu fazer um curso de Especialização em Metodologia do Ensino Superior, ministrado em Guarabira. O curso foi uma oportunidade maravilhosa para a eterna descoberta e redescoberta do fascínio pela arte de ensinar e aprender, como também para o reencontro com colegas e amigos da área de Educação.

Discurso de formatura da Especialização em Metodologia do Ensino Superior

Guarabira, 06 de outubro de 2001.

Parafraseando o poeta Thiago de Mello, peço licença a todos para desfraldar o meu canto de amor publicamente. E o faço entoando palavras de gratidão. Primeiro, a Deus: pela saúde, pela paz; por ter-nos dado a todos e a cada um o existir, e a graça de hoje fruir deste momento único. E nem poderia eu iniciar sem antes agradecer a Deus, pois como observou Machado de Assis, o que se deve crer sem erro é que Deus é Deus. E, como também diria aquele mestre de todos nós, se houver alguma moça árabe neste recinto, que em vez do nome Deus escute Alá, pois todas as línguas vão dar ao céu.

Por falar em Machado de Assis, um dos seus mais célebres personagens se propôs, certa feita, a atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Proponho agora desafio semelhante, embora menos ousado: atar as duas pontas do nosso curso de Especialização, tentando compor um breve quadro com as reminiscências que me vieram vindo. Com a evocação dessas lembranças, aproveitarei para continuar com as palavras de agradecimento.

De volta ao começo. Estávamos em março de 2000. Na abertura do curso, com as presenças de ilustres representantes do Centro de Ensino, Consultoria e Pesquisa (C & E) e de autoridades desta cidade, foi proferida a aula magna, pelo Dr. Carlos Alberto Jales, professor da primeira e da última disciplinas do curso, tão marcante a ponto de ser escolhido para dar nome à nossa turma. Professor Jales, a grandeza, dizia Aristóteles, não consiste em receber honras, mas em merecê-las. O senhor as merece. Aceite, pois, nossa sincera homenagem.

Continuando com as reminiscências, lembro que logo na primeira aula, o professor Jales estampou no quadro o imorredouro conselho de Horácio: carpe diem! (aproveita o dia!) A partir de então, sentimo-nos convidados e estimulados a sorver com paixão cada gota dos ensinamentos ministrados em sala de aula por todos os professores. Glória Galvão fez desfilar na passarela a LDB e nos chamou à atenção para a importância de conhecermos as normas que regem a educação em nosso país. Glória Menezes aguçou nossa sensibilidade, fazendo com que redescobríssemos valores humanos guardados dentro de cada um de nós. Otaviana Maroja, tão dedicada no afã de nos iniciar nos sutis meandros da Psicologia Educacional e da Aprendizagem, ensinou-nos que o ser humano é, antes de tudo, um fabuloso criador de símbolos. Veio, então, o professor Manoel Câmara, demonstrando, com engenho e arte, a lição de Sócrates: quem aprende é o aluno por si mesmo, e o papel do professor é provocar a elaboração intelectual do aluno, perguntando, dialogando, fazendo-o pensar e encontrar as respostas. Francisca Alexandre, por sua vez, apontou-nos o caminho das pedras para elaborarmos um planejamento educacional verdadeiramente participativo. Eliene Wanderley estimulou nosso raciocínio com a resolução de quebra-cabeças e, de maneira prática procurou nos mostrar que Português não é um bicho-de-sete-cabeças; Paulo Wanderley, além de explanar sobre os multimeios em educação, fez com que exercitássemos nossa capacidade de elocução. Quem dos colegas não se recorda dos mafagafos com os seus mafagafinhos? Maria Dorotéia, não sem antes nos fazer algum medo quanto ao que nos estava reservado no desenvolvimento do trabalho monográfico, atuou como João Batista no deserto, preparando os caminhos para a vinda do professor José Augusto Peres, mestre tão renomado, que muito nos honrou com sua presença entre nós. Tivemos ainda a professora Luciene Câmara, que não somente nos proporcionou as informações necessárias para compreendermos a filosofia da qualidade total na educação, como também, como diretora do C & E, esteve sempre presente durante o curso, ouvindo pacientemente nossos apelos e sugestões. Por fim, Edith Carmen, que se dispôs a fazer o arremate para que pudéssemos trazer à existência o nosso trabalho de conclusão de curso. A todos os professores, nosso mais profundo reconhecimento.

Os agradecimentos também devem ser dirigidos à Diretoria do C&E, neste curso em parceria com a Fundação Francisco Mascarenhas, que nos proporcionou o instrumental e o ambiente necessários à realização do nosso curso. De maneira especial queremos agradecer ao professor Júlio Francisco, diretor do Colégio Santo Antônio, pelo caloroso acolhimento oferecido naquela escola, que quinzenalmente passou a ser o nosso abrigo, e à secretária Joselma, por todo o carinho e dedicação no atendimento a todos que cursamos a Especialização em Metodologia do Ensino Superior.

Não se pode esquecer, também, o papel desempenhado por nós, alunos, para o êxito do curso. Cada qual com seu jeito peculiar: uma retraída, outro expansivo; um quase fleumático, outra semi-frenética; mas todos, apesar das diferenças – ou quem sabe até em virtude delas ─ fomos pouco a pouco nos enriquecendo mutuamente. Tivemos oportunidade de compartilhar tanto a nossa experiência profissional e acadêmica nos estudos em grupo, quanto a nossa descontração nas brincadeiras desenvolvidas. A propósito das brincadeiras, o elemento lúdico foi uma constante no aprendizado nesse curso de Especialização. Sentamos no chão da sala, traçamos desenhos na folha de papel, fizemos colagem, atuamos como atores e recitadores, poetas, menestréis. E o mais importante é que, a partir da convivência, fomos nos conhecendo e nos dando a conhecer, criando na sala de aula um ambiente marcado pela alegria e pelo encantamento de quem se aventura em novas descobertas.

Tudo isso só foi possível com a ajuda, o incentivo ou, pelo menos, a tolerância dos nossos familiares. Quantos de nós tivemos que abandonar um pouco do aconchego do lar, o convívio dos pais, dos filhos, dos maridos e das esposas, namorados e namoradas, para podermos, muitas vezes com imenso sacrifício, estar presentes nas aulas de sexta à noite e nos dias de sábado. Por tudo isso, essa vitória que hoje alcançamos também é de vocês.

Eu dizia, no início, que pretendia atar as duas pontas do nosso curso de Especialização. De antemão, porém, pressentia que tal empreitada seria praticamente impossível, pois não nos é dado reconstituir, com palavras, tudo aquilo que ficou para trás. Por isso, tal qual o personagem de Machado de Assis, posso agora lhes confessar: ─ Pois bem, meus colegas, na tentativa de trazer à mente breves lembranças do passado, não consegui recompor o que foi nem o que fomos.

Creio, porém, não ter sido de todo infecundo deitar ao papel estas reminiscências. Afinal de contas, com a visão bem mais rica que hoje temos da Metodologia do Ensino Superior, depois de termos passado esse tempo juntos procurando dissecar muitos dos problemas que afligem o nosso dia-a-dia como educadores, voltar ao começo não quer dizer apenas vasculhar na memória lembranças de fatos que os anos não trazem mais. Assemelha-se, ao contrário, à atitude de quem cumpriu mais uma importante etapa da vida, e faz um balanço de sua aprendizagem, a fim de retomar a caminhada. Por isso o sentimento que nos deve mover não é o de nostalgia pelo que já passou, mas de saudade das coisas que ainda estão por vir, o que me faz lembrar uma antológica passagem de Rubem Alves. Este, no livro a alegria de ensinar, conta que, depois de transmitir uma série de ensinamentos, um mestre toma o discípulo pela mão e o leva ao topo da montanha. Atrás deles, se avistam vales, caminhos, aldeias, cidades, tudo isso iluminado pela luz do sol que surge no horizonte. Nesse cenário encantador, o mestre toma a palavra:

Por todos estes caminhos já andamos. Ensinei-lhe aquilo que sei. Já não há surpresas. Nestes cenários conhecidos moram os homens. Também eles foram meus discípulos! Dei-lhes o meu saber e eles aprenderam minhas lições. Constróem casas, abrem estradas, plantam campos, geram filhos… Vivem a boa vida cotidiana, com suas alegrias e tristezas. Veja estes mapas!

Então, o mestre toma rolos de papel que trazia debaixo do braço e os abre diante do discípulo:

Aqui se encontra o retrato deste mundo. Se você prestar bem atenção, verá que há mapas dos céus, mapas das terras, mapas do corpo, mapas da alma. Andei por estes cenários. Naveguei, pensei, aprendi. Aquilo que aprendi e que sei está aqui. E estes mapas eu lhe dou, como minha herança. Com eles você poderá andar por estes cenários sem medo e sem sustos, pisando sempre a terra firme. Dou-lhe o meu saber.

Depois o mestre fica em silêncio e olha nos olhos do aprendiz. Procura adivinhar o que se esconde naquele olhar. Em seguida examina os pés dele. Os pés sólidos denunciam a vocação para andar por caminhos conhecidos. O mestre, porém, procura nas costas do discípulo algum vestígio de asas, pois sabe que os seres humanos são alados por nascimento, e só esquecem da vocação pelas alturas, quando dominados pelo fascínio das coisas já conhecidas.

Falando em asas, peço mais uma vez, permissão para citar outro artífice da palavra, o poeta Carlos Alberto Jales, que numa de suas poesias, parece sintetizar o sentimento daquele mestre de que fala Rubem Alves. Diz o poema, chamado retrato de homem:

Queridos e queridas colegas concluintes: não deixemos morrer dentro de nós a dimensão para o transcendente. Mesmo com os pés no chão, cultivemos nossos sonhos, pois estes, como ensina Rubem Alves, são os mapas dos navegantes que procuram novos mundos. Parabéns pela formatura e obrigado pela amizade que me é dispensada, o que para mim é quase tudo de que preciso, pois, como afirma Guimarães Rosa, pela boca de seu personagem Riobaldo, ao falar de Diadorim: “a amizade dele, ele me dava. E amizade dada é amor.” E é recitando a palavra amor, publicamente, que lhes peço licença para terminar meu canto.

Muito obrigado.

January 24, 2011 at 9:55 pm Leave a comment

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