QUATRO DISCURSOS (2)

DIREITO, 1988

Não me imaginava nunca fazendo o curso de Direito. Quando fiz a complementação do curso de Letras, em Campina Grande, funcionavam no mesmo prédio (Colégio Anita Cabral), os cursos de Letras e Direito. Mas parecíamos habitar mundos bem diferentes e distantes. Porém, com o incentivo (ou o empurrão) dos familiares, de modo especial de meu irmão, Tércio, acabei virando bacharel, e, mais uma vez, orador das turmas do curso de Direito da Universidade Federal da Paraíba.

A aula da saudade foi ministrada pela professora Ivanize Marinho de Menezes, na Escola de Prática Forense, que funcionava no prédio da antiga Faculdade de Direito, em João Pessoa. A sessão solene de colação de grau foi realizada no Cinê Banguê, do Espaço Cultural, e o baile de formatura, no Jangada Clube.

Estes foram os concluintes:

Abraão Brito Lira Beltrão, Agamenilde Dias Arruda, Ana Adelaide Guedes Pereira Rosa, Ana Maria da Costa, Antônio Cavalcante da Costa Neto, Arlan Costa Barbosa, Cláudia S. Lessa F. Virgolino, Dorgival Terceiro Neto Júnior, Eduardo Ramalho Rabenhorst, Edvaldo Brilhante da Silva Filho, Elson Amorim de Araújo, Fábio de Siqueira Miranda, Genival Martins Barbosa de Lima, Guilherme Costa Câmara, Hércules Soares Barbosa, Ivanilda Cardoso de M. Novais, João de Assis Silveira Marques, Jomário Sampaio Monteiro, José Augusto de Souza Peres Filho, José Hilton Ferreira da Silva, Júllia Cristina do Amaral Nóbrega, Licélia Maria Cordeiro de Souza, Manuel Maia de Vasconcelos Neto, Marcus Frederico Claudino Veras, Maria Amália Ferreira de Araújo, Maria das Neves Carneiro, Maria de Fàtima de Assis, Maria Elizabeth M. da Silva, Mário Fernandes de Oliveira Filho, Monaldo Godoi Fernandes, Nelson Pereira Lima, Nilton da Silva Alves, Onaldo Rocha de Queiroga, Oneill Guedes A. de Carvalho, Paula Reis de Andrade, Ribamar de Mello, Roberto Fernandes Correia, Rogério de Meneses Fialho Moreira, Romero Carneiro Feitosa, Roseberto Santos Correia, Rósula Kelly Medrado Almeida Passos, Sérgio Rique Pereira Gomes, Sílvio José da Silva, Solange Machado Cavalcanti, Telma Paiva Leite de Andrade, Telma Roberta Vasconcelos Motta, Teozimar Campos Moreira, Tereza Helena Maria de Paiva, Thalma Sampaio de Lucena, Vanina Nóbrega de Freitas Dias e Waldimar Queiroz de Lima.

Começamos o curso de Direito em 1984, época em que se viveu mais um período de redemocratização do país, e concluímos antes da promulgação da Constituição de 1988. O tempo em que se deu o curso foi marcado pela tensão entre a velha e nova ordem jurídica. As grandes discussões da Assembléia Nacional Constituinte, instalada em fevereiro de 1987, refletiam os clamores e as contradições dos diversos segmentos da sociedade e, ao mesmo tempo, faziam-se ecoar na vida desses mesmos segmentos.

Discurso de formatura do curso de Direito

João Pessoa, 08 de janeiro de 1988

É preciso ritos.

Exupéry.

Hoje, dia 8 de janeiro de 1988: colação de grau da turma concluinte do curso de Direito da Universidade Federal da Paraíba, turma que se orgulha em levar o nome do ilustre e saudoso Desembargador João Pereira Gomes. É mais um rito em nossas vidas.

O Direito é, antes de tudo, rito dos homens para solucionar conflitos da vida. A vida nada mais é do que o grande rito em que o homem, na construção da história e de si mesmo, vai renovando a cada dia, o rito da criação. Há o rito do trabalho e o rito do amor; o rito da guerra e o rito da paz. E como a própria vida, que é sempre nova a cada alvorecer, um rito jamais se repete, pois traz nas entranhas o mistério da renovação da existência humana.

Por isso o curso de Direito da UFPB, seus professores e alunos, em unidade com todos os que se fazem presentes a esta solenidade, revestem-se no manto festivo da alegria rediviva. É como se, saindo da aparente mesmice do cotidiano, fôssemos subitamente guindados ao monte da transfiguração.

Mas é justamente do cimo da colina que melhor podemos contemplar o vale. Desçamos o monte para uma breve investida nesse vale de lágrimas: o Brasil — que ironia — da Nova República! Nem é preciso dizer muito. Está tudo aí: crise econômica, crise política, crise social, crise moral, crise institucional, crise de valores. Estertores de uma nação em que a esperança morre à míngua, o sol da liberdade não brilha com raios tão fúlgidos sobre a imensa legião dos depauperados de todo gênero, e a justiça social ainda é simples acalanto a embalar os sonhos do gigante adormecido em berço esplêndido.

Todavia, sábias são as palavras do saudoso Presidente Tancredo Neves: “a esperança é o único patrimônio dos deserdados, e é a ela que recorrem as Nações, ao ressurgirem dos desastres históricos.” Apesar de tudo, esperemos que a partir do caos em que estamos sucumbindo, possa ser plasmado um novo cosmos no qual a esperança renasça qual fênix maravilhosa.

Deve-se falar em crise não por modismo, mas porque é nesse caos, caros colegas, que iremos fazer a hora e a história, como homens e mulheres do Direito. Idealismo, nesse contexto, pode soar como algo quixotesco. Só que alguma coisa tem que ser feita e ninguém o fará por nós. Estaremos todos “soltos nesse mundo largo…”

Portanto, este não é o momento para a apologia do ceticismo ou para o desespero. Afinal, estamos apenas no começo de uma jornada, que esperamos seja repleta de êxitos, e os desafios poderão ser superados com humildade e coragem, inteligência e boa vontade.

Voltemos, então, à colina. É hora de agradecer. Em primeiríssimo lugar, a Deus, Supremo Autor do Universo, da vida e dos homens, nossa Verdadeira Esperança; aos pais, co-autores nessa empreitada divina, e aos nossos familiares, o sincero reconhecimento por tudo o que, sem a sua ajuda, jamais conseguiríamos conquistar; aos mestres, cúmplices da nossa teimosia na interminável perseguição ao saber, o nosso muito obrigado.

A gratidão reflete a humildade dos sábios. Alguns agradecimentos específicos devem ser feitos: ao jurista e professor Dr. Tarcísio Burity, governador do nosso Estado, por todo apoio à vida jurídica paraibana; ao nosso paraninfo, Dr. Humberto Lucena, o senador da Paraíba, símbolo da luta pela redemocratização do país; ao patrono das turmas, engenheiro Zenóbio Toscano, o mais dinâmico prefeito da nossa Guarabira, hoje centenária; à Dra. Onélia Queiroga, nossa madrinha, professora exemplar, coordenadora zelosa e dedicada na luta pela criação do Centro de Ciências Jurídicas da nossa Universidade; ao Dr. Antônio Elias Queiroga, nosso ilustre professor, a homenagem especial da nossa turma, e a todos que, de alguma forma, contribuíram para a conclusão do nosso bacharelado, a eterna gratidão que jamais poderia ser plenamente expressa pela “úlltima flor do Lácio”, apesar de belissimamente inculta e esplendorosamente bela.

Por fim, apenas uma palavra aos colegas bacharelandos. Honremos a nossa vida como profissionais do Direito, que é lindo por ser dialético campo de batalha onde não há donos da verdade. Mais do que capacidade intelectual, busquemos a sabedoria. Aprendamos a lição do Único e Verdadeiro Mestre, que nos adverte para o fato de que a lei deve estar a serviço do homem e não deve ser um instrumento para escravizá-lo. Lembremos que acima dos códigos estão os fatos; acima da lei está a vida, e que os homens estão sedentos de vida e não apenas de leis, pois como afirma o poeta Carlos Drummond de Andrade, as leis não bastam; os lírios não nascem da lei.

O discurso pára por aqui. O rito da vida, porém, continua a fluir como rio perene que deságua no infinito. Parabéns aos responsáveis por este rito; boa sorte, companheiros bacharelandos; a todos, muito obrigado.

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January 24, 2011 at 9:56 pm Leave a comment

QUATRO DISCURSOS (3)

ESPECIALIZAÇÃO EM METODOLOGIA DO ENSINO SUPERIOR, 2001.

Em 2000 e 2001, atuei como Juiz do Trabalho, respectivamente, nas cidades de Picuí e Areia, o que me permitiu fazer um curso de Especialização em Metodologia do Ensino Superior, ministrado em Guarabira. O curso foi uma oportunidade maravilhosa para a eterna descoberta e redescoberta do fascínio pela arte de ensinar e aprender, como também para o reencontro com colegas e amigos da área de Educação.

Discurso de formatura da Especialização em Metodologia do Ensino Superior

Guarabira, 06 de outubro de 2001.

Parafraseando o poeta Thiago de Mello, peço licença a todos para desfraldar o meu canto de amor publicamente. E o faço entoando palavras de gratidão. Primeiro, a Deus: pela saúde, pela paz; por ter-nos dado a todos e a cada um o existir, e a graça de hoje fruir deste momento único. E nem poderia eu iniciar sem antes agradecer a Deus, pois como observou Machado de Assis, o que se deve crer sem erro é que Deus é Deus. E, como também diria aquele mestre de todos nós, se houver alguma moça árabe neste recinto, que em vez do nome Deus escute Alá, pois todas as línguas vão dar ao céu.

Por falar em Machado de Assis, um dos seus mais célebres personagens se propôs, certa feita, a atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Proponho agora desafio semelhante, embora menos ousado: atar as duas pontas do nosso curso de Especialização, tentando compor um breve quadro com as reminiscências que me vieram vindo. Com a evocação dessas lembranças, aproveitarei para continuar com as palavras de agradecimento.

De volta ao começo. Estávamos em março de 2000. Na abertura do curso, com as presenças de ilustres representantes do Centro de Ensino, Consultoria e Pesquisa (C & E) e de autoridades desta cidade, foi proferida a aula magna, pelo Dr. Carlos Alberto Jales, professor da primeira e da última disciplinas do curso, tão marcante a ponto de ser escolhido para dar nome à nossa turma. Professor Jales, a grandeza, dizia Aristóteles, não consiste em receber honras, mas em merecê-las. O senhor as merece. Aceite, pois, nossa sincera homenagem.

Continuando com as reminiscências, lembro que logo na primeira aula, o professor Jales estampou no quadro o imorredouro conselho de Horácio: carpe diem! (aproveita o dia!) A partir de então, sentimo-nos convidados e estimulados a sorver com paixão cada gota dos ensinamentos ministrados em sala de aula por todos os professores. Glória Galvão fez desfilar na passarela a LDB e nos chamou à atenção para a importância de conhecermos as normas que regem a educação em nosso país. Glória Menezes aguçou nossa sensibilidade, fazendo com que redescobríssemos valores humanos guardados dentro de cada um de nós. Otaviana Maroja, tão dedicada no afã de nos iniciar nos sutis meandros da Psicologia Educacional e da Aprendizagem, ensinou-nos que o ser humano é, antes de tudo, um fabuloso criador de símbolos. Veio, então, o professor Manoel Câmara, demonstrando, com engenho e arte, a lição de Sócrates: quem aprende é o aluno por si mesmo, e o papel do professor é provocar a elaboração intelectual do aluno, perguntando, dialogando, fazendo-o pensar e encontrar as respostas. Francisca Alexandre, por sua vez, apontou-nos o caminho das pedras para elaborarmos um planejamento educacional verdadeiramente participativo. Eliene Wanderley estimulou nosso raciocínio com a resolução de quebra-cabeças e, de maneira prática procurou nos mostrar que Português não é um bicho-de-sete-cabeças; Paulo Wanderley, além de explanar sobre os multimeios em educação, fez com que exercitássemos nossa capacidade de elocução. Quem dos colegas não se recorda dos mafagafos com os seus mafagafinhos? Maria Dorotéia, não sem antes nos fazer algum medo quanto ao que nos estava reservado no desenvolvimento do trabalho monográfico, atuou como João Batista no deserto, preparando os caminhos para a vinda do professor José Augusto Peres, mestre tão renomado, que muito nos honrou com sua presença entre nós. Tivemos ainda a professora Luciene Câmara, que não somente nos proporcionou as informações necessárias para compreendermos a filosofia da qualidade total na educação, como também, como diretora do C & E, esteve sempre presente durante o curso, ouvindo pacientemente nossos apelos e sugestões. Por fim, Edith Carmen, que se dispôs a fazer o arremate para que pudéssemos trazer à existência o nosso trabalho de conclusão de curso. A todos os professores, nosso mais profundo reconhecimento.

Os agradecimentos também devem ser dirigidos à Diretoria do C&E, neste curso em parceria com a Fundação Francisco Mascarenhas, que nos proporcionou o instrumental e o ambiente necessários à realização do nosso curso. De maneira especial queremos agradecer ao professor Júlio Francisco, diretor do Colégio Santo Antônio, pelo caloroso acolhimento oferecido naquela escola, que quinzenalmente passou a ser o nosso abrigo, e à secretária Joselma, por todo o carinho e dedicação no atendimento a todos que cursamos a Especialização em Metodologia do Ensino Superior.

Não se pode esquecer, também, o papel desempenhado por nós, alunos, para o êxito do curso. Cada qual com seu jeito peculiar: uma retraída, outro expansivo; um quase fleumático, outra semi-frenética; mas todos, apesar das diferenças – ou quem sabe até em virtude delas ─ fomos pouco a pouco nos enriquecendo mutuamente. Tivemos oportunidade de compartilhar tanto a nossa experiência profissional e acadêmica nos estudos em grupo, quanto a nossa descontração nas brincadeiras desenvolvidas. A propósito das brincadeiras, o elemento lúdico foi uma constante no aprendizado nesse curso de Especialização. Sentamos no chão da sala, traçamos desenhos na folha de papel, fizemos colagem, atuamos como atores e recitadores, poetas, menestréis. E o mais importante é que, a partir da convivência, fomos nos conhecendo e nos dando a conhecer, criando na sala de aula um ambiente marcado pela alegria e pelo encantamento de quem se aventura em novas descobertas.

Tudo isso só foi possível com a ajuda, o incentivo ou, pelo menos, a tolerância dos nossos familiares. Quantos de nós tivemos que abandonar um pouco do aconchego do lar, o convívio dos pais, dos filhos, dos maridos e das esposas, namorados e namoradas, para podermos, muitas vezes com imenso sacrifício, estar presentes nas aulas de sexta à noite e nos dias de sábado. Por tudo isso, essa vitória que hoje alcançamos também é de vocês.

Eu dizia, no início, que pretendia atar as duas pontas do nosso curso de Especialização. De antemão, porém, pressentia que tal empreitada seria praticamente impossível, pois não nos é dado reconstituir, com palavras, tudo aquilo que ficou para trás. Por isso, tal qual o personagem de Machado de Assis, posso agora lhes confessar: ─ Pois bem, meus colegas, na tentativa de trazer à mente breves lembranças do passado, não consegui recompor o que foi nem o que fomos.

Creio, porém, não ter sido de todo infecundo deitar ao papel estas reminiscências. Afinal de contas, com a visão bem mais rica que hoje temos da Metodologia do Ensino Superior, depois de termos passado esse tempo juntos procurando dissecar muitos dos problemas que afligem o nosso dia-a-dia como educadores, voltar ao começo não quer dizer apenas vasculhar na memória lembranças de fatos que os anos não trazem mais. Assemelha-se, ao contrário, à atitude de quem cumpriu mais uma importante etapa da vida, e faz um balanço de sua aprendizagem, a fim de retomar a caminhada. Por isso o sentimento que nos deve mover não é o de nostalgia pelo que já passou, mas de saudade das coisas que ainda estão por vir, o que me faz lembrar uma antológica passagem de Rubem Alves. Este, no livro a alegria de ensinar, conta que, depois de transmitir uma série de ensinamentos, um mestre toma o discípulo pela mão e o leva ao topo da montanha. Atrás deles, se avistam vales, caminhos, aldeias, cidades, tudo isso iluminado pela luz do sol que surge no horizonte. Nesse cenário encantador, o mestre toma a palavra:

Por todos estes caminhos já andamos. Ensinei-lhe aquilo que sei. Já não há surpresas. Nestes cenários conhecidos moram os homens. Também eles foram meus discípulos! Dei-lhes o meu saber e eles aprenderam minhas lições. Constróem casas, abrem estradas, plantam campos, geram filhos… Vivem a boa vida cotidiana, com suas alegrias e tristezas. Veja estes mapas!

Então, o mestre toma rolos de papel que trazia debaixo do braço e os abre diante do discípulo:

Aqui se encontra o retrato deste mundo. Se você prestar bem atenção, verá que há mapas dos céus, mapas das terras, mapas do corpo, mapas da alma. Andei por estes cenários. Naveguei, pensei, aprendi. Aquilo que aprendi e que sei está aqui. E estes mapas eu lhe dou, como minha herança. Com eles você poderá andar por estes cenários sem medo e sem sustos, pisando sempre a terra firme. Dou-lhe o meu saber.

Depois o mestre fica em silêncio e olha nos olhos do aprendiz. Procura adivinhar o que se esconde naquele olhar. Em seguida examina os pés dele. Os pés sólidos denunciam a vocação para andar por caminhos conhecidos. O mestre, porém, procura nas costas do discípulo algum vestígio de asas, pois sabe que os seres humanos são alados por nascimento, e só esquecem da vocação pelas alturas, quando dominados pelo fascínio das coisas já conhecidas.

Falando em asas, peço mais uma vez, permissão para citar outro artífice da palavra, o poeta Carlos Alberto Jales, que numa de suas poesias, parece sintetizar o sentimento daquele mestre de que fala Rubem Alves. Diz o poema, chamado retrato de homem:

Queridos e queridas colegas concluintes: não deixemos morrer dentro de nós a dimensão para o transcendente. Mesmo com os pés no chão, cultivemos nossos sonhos, pois estes, como ensina Rubem Alves, são os mapas dos navegantes que procuram novos mundos. Parabéns pela formatura e obrigado pela amizade que me é dispensada, o que para mim é quase tudo de que preciso, pois, como afirma Guimarães Rosa, pela boca de seu personagem Riobaldo, ao falar de Diadorim: “a amizade dele, ele me dava. E amizade dada é amor.” E é recitando a palavra amor, publicamente, que lhes peço licença para terminar meu canto.

Muito obrigado.

January 24, 2011 at 9:55 pm Leave a comment

QUATRO DISCURSOS (4)

TEOLOGIA, 2007

Antes do Mestrado em Direito, concluído no ano passado, fiz um bacharelado em Teologia. Foram cinco anos de estudo e reflexão muito proveitosos, que somente a graça de Deus é capaz de nos proporcionar.

Estes foram os concluintes: Antônio Cavalcante da Costa Neto, Antonio Severino de Araújo, Aldenise de Oliveira, Ângela Maria Ramos Pereira, Cícero Batista da Silva, Eliclayde Matias Rodrigues, Ernande Tavares de Alexandria, Francinaldo José da Silva Santos, Francisca Bezerra de Lima Melo, Geraldo Pereira Leite, Gustavo Meneses, José Carlos do Nascimento Santos, José Januário de Oliveira Neto, Josefa Diogo de Lima, João Valério da Silva, José Nazaré Farias de Carvalho, José Pedro da Silva, Lúcia Carneiro da Silva, Lenira da Silva Ferreira, Marinho Mendes Machado, Margarida Noélia Bezerra dos Santos, Maria do Socorro Batista da Rocha, Maria da Solidade de Lima Silva, Ose Carmem da Silva, Roberto Carlos da Silva, Rejane de Andrade Costa, Simone de Andrade dos Santos, Severina Aparecida Augusto da Silva, Severino do Ramo Lima de Oliveira e Verônica Jussara da Silva.

Depois de terminar o curso cheguei a dar aulas às novas turmas, como voluntário, nas disciplinas Direito Canônico, Ensino Social da Igreja, Moral Fundamental (Ética teológica) e TAO (Trabalho Acadêmico Orientado). Infelizmente, a Faculdade não conseguiu permanecer com suas portas abertas. Mas é importante dar graças a Deus pelas sementes lançadas.

Discurso de formatura do bacharelado em Teologia

Guarabira, 13 de dezembro de 2007.

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Fernando Pessoa.

O querer de Deus, cantado em verso pelo poeta português, não pode ser outro senão um querer repleto de amor. Deus, como alguém já disse, não sabe não amar. Por isso, é no reconhecimento do amor do Deus Trindade, que devemos começar a agradecer por este momento tão importante em nossas vidas. Pois Deus quis e permitiu que a Faculdade Católica de Campina Grande pudesse hoje, na festa de Santa Luzia, celebrar a colação de grau dos trinta primeiros bacharéis em Teologia, formados nesta cidade de Guarabira. E se todas as palavras humanas são insuficientes para agradecer a Deus por esta vitória, que o nosso balbuciar analógico e o nosso calar doxológico se elevem aos céus a expressar o nosso muito obrigado por seu amor infinito.

O sonhar humano, de que também fala o poeta, é condição essencial para não deixarmos morrer dentro nós a dimensão do transcendente. Os sonhos, como observa Rubem Alves, são mapas de navegantes que procuram novos mundos, e não nos deixam esquecer que nós humanos somos seres alados por nascimento, e só esquecemos a vocação pelas alturas quando enfeitiçados pelo conhecimento das coisas já sabidas.

Mas como diz o verso do poeta, não bastam o querer de Deus e o sonho do ser humano. É preciso fazer nascer a obra. E foi assim com a nossa Faculdade, nascida do querer de Deus e construída a partir do sonho e do trabalho de muitas pessoas às quais também devemos agradecer: a Dom Antonio Muniz, seu idealizador, que dá nome à turma pioneira; a Dom Jaime Vieira Rocha, que em unidade com Dom Antônio fez com que fizéssemos parte da Faculdade Católica de Campina Grande e não tem poupado esforços para o reconhecimento do nosso curso; ao Frei Domingos Fragoso, padrinho da turma, que não apenas proferiu nossa aula inaugural, mas, como professor de Introdução ao Método Teológico, descortinou para nós o mundo maravilhoso da ciência da fé; a Dona Detinha Diogo, colega de turma e exemplo de perseverança na fé e na formação cristã; na verdade, a senhora sempre foi para nós uma verdadeira madrinha; ao Pe. José Floren, patrono da turma, professor dedicado, que tanto nos enriqueceu no aprofundamento da Teologia dos Sacramentos; ao professor Paulo Afonso, o mestre amigo, que conosco compartilhou o estudo de várias disciplinas, oferecendo-nos um novo olhar sobre a Sagrada Escritura; a Lucicleide, Secretária do Curso e a Ir. Ivanir, sempre diligentes em seus afazeres, que fizeram um trabalho inestimável para a organização de nossa Faculdade; a Ir. Socorro, com seu conhecimento profundo e com o testemunho de vida, que tanto nos encantou na caminhada pela Teologia da Espiritualidade Cristã; a estas três mulheres, nossa homenagem de gratidão. A propósito, é preciso lembrar o nome de outra mulher muito importante para a nossa Faculdade. Trata-se da Ir. Jade, que seria coordenadora do nosso curso, e que já havia feito um intenso trabalho de planejamento para que a Faculdade pudesse se tornar realidade, e que faleceu pouco antes do início de nossas aulas. A ela, nossa mais profunda homenagem. Enfim, a todos os professores que, com suas lições, contribuíram decisivamente para o triunfo que hoje celebramos, o nosso muito obrigado.

Mas essa vitória não seria possível sem a colaboração dos nossos pais, filhos, esposas, maridos, namorados, enfim, todos os familiares que tivemos de privar do convívio, para freqüentar as aulas todas as noites durante o nosso curso. Esta vitória é tanto nossa quanto de vocês.

É preciso ainda lembrar a importância de cada um dos colegas bacharelandos para o êxito do nosso curso. A todos e a cada um de vocês, o abraço afetuoso e a saudade que já nos invade, de irmãos que conviveram juntos nesses quatro ou cinco anos de convivência, e que recebem a homenagem da turma na pessoa da colega Lúcia Carneiro.

E por falar em saudade, ontem definida pelo professor Carlos Alberto Tavares, como sendo a “lembrança de uma convivência feliz que nos leva a apreciação profunda da beleza e do sentido da vida”, gostaria de concluir com a lembrança de nossa primeira aula, a lectio brevis, proferida no dia 07 de março de 2003 pelo Frei Domingos Fragoso, Doutor pela Universidade Santo Tomás de Aquino, em Roma, sobre o tema: o saber.

Na oportunidade, Frei Domingos disse que nós alunos, prestes a iniciar o curso e sem saber muito bem o que nos esperava, poderíamos buscar na Teologia não só um maior conhecimento de Deus, mas do sentido da vida e da existência do cosmos. E que tudo isso deveria ser estudado não de maneira isolada, pois não deveríamos cultivar um saber fragmentário nem reducionista, até porque, desde a criação, foi instaurada uma íntima relação amorosa entre o Criador e as criaturas. Daí que não se poderia compreender a essência de nós mesmos e do mundo, sem a necessária referência ao Autor de todas as realidades criadas. E hoje, passados cinco anos de estudo, podemos ver com mais clareza a verdade contida naquela primeira lição. Pois no curso que ora concluímos ficou claro que a Teologia é um saber vivo e dinâmico, que não deve ser estudado por simples diletantismo intelectual. Em vez disso, deve ser uma reflexão e uma vivência voltadas para a busca do sentido da vida e para o serviço aos irmãos. Não é ficar olhando para o firmamento esperando respostas ditadas do além, mas descer do monte da transfiguração para se inserir na concretude do mundo, denunciando tudo o que impede a realização do Projeto de Deus em nosso meio.

Por tudo isso, o curso de Teologia representa uma promissora semente plantada nesta Diocese, fruto do querer de Deus e do sonho de muitos homens e mulheres. É mister, porém, que esta Igreja particular não permita que esta semente germinada venha a perecer. E essa é uma tarefa de todos nós; nós que formamos a comunidade eclesial, cuja dignidade dos membros é a mesma em virtude da regeneração em Cristo, como lembra a Lumem Gentium. E rogando a intercessão de Nossa Senhora da Luz, neste dia de Santa Luzia, a quem Dante Aleghieri, na Divina Comédia, atribui a função de graça iluminadora, suplicamos ao Deus Trindade, que o seu querer de amor, que suscitou sonhos e fez nascer esta Faculdade, nos ajude a continuar formando novas turmas de bacharéis em Teologia, para bem servir aos nossos irmãos, na caminhada para a construção do Reino de Deus.

Muito obrigado.

January 24, 2011 at 9:53 pm Leave a comment

Justiça, direito, lei.

Comecei a dar aulas de Introdução ao Direito há mais de quinze anos. Faz mais de dez que publiquei Direito, mito e metáfora. Nas aulas e no livro insisto na ideia de que a reflexão sobre o direito não deve ficar restrita aos juristas. O direito interessa a todos, uma vez que as diversas relações sociais são permeadas pelo fenômeno jurídico. Por isso, aquele livro procura nos levar a uma viagem pela odisseia do direito, guiados não só pelas lições dos juristas, mas pelo cantar dos poetas, pela reflexão dos filósofos, historiadores, sociólogos, geógrafos, entre outros, com suas diversas narrativas, muitas delas míticas no sentido original da palavra, e carregadas do dinamismo e do colorido peculiar às metáforas.

Por outro lado, penso que as reflexões desses diversos autores devem nos fazer pensar sobre o mundo que criamos coletivamente e no qual vivemos, para que possamos melhor contribuir para transformá-lo num mundo mais bonito de se viver. É nesse sentido que os pensamentos e ideias abaixo, sobre justiça, direito e lei, são apresentados:


Olho por olho, dente por dente, braço por braço, pé por pé, vida por vida.

Código de Hamurábi (± 2.000 a.C)


Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

Jesus de Nazaré (± 4 a.C a ± 30 d.C).

O direito é a arte do bem e do justo.
Celso
(séc. I a II).

Tais são os preceitos do direito: viver honestamente, não prejudicar ninguém, dar a cada um o que é seu.

(Iuris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere).

Ulpiano (150-228).

A justiça é a ordem do amor.

Agostinho de Hipona (354-430).

A lei é uma determinação da razão em vista do bem comum, promulgada por quem tem o encargo da comunidade.

Tomás de Aquino (± 1225 a 1274)

O direito é a proporção real e pessoal de homem para homem que, conservada, conserva sociedade e que, destruída, a destrói.

Dante Aleghieri (1265-1361)

O direito é o conjunto das condições segundo as quais o arbítrio de cada um pode coexistir com o arbítrio dos outros, de acordo com uma lei geral de liberdade.

Immanuel Kant (1724-1804)

O direito é um produto de forças interiores, que operam em silêncio e está profundamente enraizado no passado da nação, e as suas verdadeiras fontes são a crença popular, os costumes e a consciência do povo.

Savigny (1779-1861)

O direito é a vontade, feita lei, da classe dominante, através de seus próprios postulados ideológicos.

Karl Marx (1818-1883).


O fim do direito é a paz; o meio de atingi-lo, a luta.

Ihering (1818 – 1892).

Não há justiça onde não haja Deus.

Rui Barbosa (1849-1923)


Direito é aquilo que é produzido de acordo com as regras do sistema, por autoridade competente, segundo ritos específicos.

Hans Kelsen (1881-1973)

A filosofia dá em resultado a moral, do mesmo modo que a política dá em resultado o direito. Farias Brito (1862-1917)

A justiça é o horizonte na paisagem do direito.

Flóscolo da Nóbrega (1898-1969).

Direito não destinado a converter-se em momento de vida é mera aparência de direito.

Miguel Reale (1910-2006)

O direito é o mistério do princípio e do fim da sociabilidade humana.

Tércio Sampaio Ferraz Jr.

January 18, 2011 at 1:35 pm Leave a comment

Se os tubarões fossem homens

January 17, 2011 at 10:45 pm Leave a comment

Pela janela de Johari

Se todo conhecimento deve partir do autoconhecimento, como questiona o “não-saber” de Sócrates;
se cada um é o intervalo entre o que deseja ser e o que os outros fazem da gente, como nos faz refletir Fernando Pessoa;
quem sabe o olhar pela janela de Johari possa ajudar na autocompreensão do nosso ser nas relações interpessoais.
Conheci este vídeo num curso realizado pela nossa escola judicial, no ano passado. O curso tratou, entre outras coisas, de gestão de pessoas. Confesso que não me apetece a ideia de ser um “juiz-gerente,” de acordo com a cartilha mais ortodoxa do mercado. Confesso também que guardo algum preconceito com certos vídeos “motivacionais,” por servirem à ideologia desse mercado. Mas penso que não é o caso deste vídeo. Que tal conferir?

January 8, 2011 at 8:06 pm Leave a comment

Mormaço – Paralamas do Sucesso e Zé Ramalho

January 8, 2011 at 8:01 pm Leave a comment

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